quarta-feira, 4 de julho de 2012

Doce de mamão verde

Eles geralmente vinham embrulhados em papel de pão ou jornal. Ela os trazia quando retornava de alguma viagem curta à casa de amigos ou parentes. Aquela gente que morava na roça, que eles tinham o costume de visitar de vez em quando. Na maioria das vezes, ela tirava os mamões verdes da sacola e os colocava pra madurar na fruteira que havia no corredor. No silêncio da noite, os frutos sutilmente envelheciam. Entregavam-se silentes à inexorável ação do tempo. O verde ia se despedindo lentamente, dando vez a um amarelo cada dia mais forte e vigoroso. A dureza e o amargor rendiam-se à maciez e a doçura do fruto maduro. Era o tempo a conduzir, discreto, o milagre do amadurecimento. Passavam-se alguns dias, e ela, intuindo o desejo do fruto em se tornar alimento, separava um dos mais avermelhados, e colocava sobre a mesa para o café da manhã. Cortava então o mamão, de fora a fora, expondo aos nossos olhos atentos a beleza da fruta que se deixou transformar. Encaixando uma de suas metades na palma da mão, ela raspava o mamão com uma colher pequena, retirando-lhe as sementes, e o colocava sobre o prato do vovô, enquanto exaltava os benefícios da fruta no auxílio à boa digestão. Eu, que até então não tinha olhos de ciência, nada sabia a respeito da química, de enzimas e metabolismos, deixava-me levar apenas pelo encanto das incontáveis bolotinhas que feito bilhas rolavam pela mesa. Em silêncio, eu me divertia, tentando adivinhar qual delas alcançaria lugar mais distante sobre a mesa.

Se as frutas trazidas da roça não tivessem como destino a fruteira, era certo que no dia seguinte haveria doce de mamão verde. Neste caso, o ritual era outro. Era preciso vencer o quanto antes a avidez da fruta em se tornar madura. Não se podia esperar. Então, assim que chegava de viagem, ela já pegava os mamões ainda bem verdinhos e, com uma faquinha de ponta fina, riscava a casca de todos eles e os deixava descansando por algumas horas. Dizia ser necessário cortar a pele para deixar escorrer o amargor. Passado o tempo necessário, ela cortava os mamões verdes ao meio, retirava as sementes esbranquiçadas, e passava todos eles, com casca e tudo, num ralador bem velhinho, que ela guardava com todo cuidado, pois era o único que ralava os mamões da maneira que ela aprovava. O ralador, em verdade, não passava de uma lata de marmelada toda furada com prego e martelo, que havia sido presente de uma cunhada, que morava em Paty do Alferes, de onde geralmente vinham os mamões verdes. Geralmente, preenchia-se uma bacia bem grande com aqueles fragmentos de mamão ralado, que compunham um emaranhado de fiapos da fruta, que variavam seus tons desde o mais claro ao mais intenso dos verdes, que nem de longe lembravam o avermelhado do fruto maduro. Ela, então, cobria o mamão ralado com água e o deixava de molho durante a noite inteira. Na manhã seguinte, ainda bem cedo, lá estava ela à beira do fogão, a mexer o tacho com o açúcar e os fiapos da fruta, enquanto o vapor que ascendia, perfumava o sobrado com aquele cheirinho de doce de mamão verde e com nuances de cravo e canela. Naquele tempo, eu nem apreciava tanto assim o sabor do doce de mamão verde, mas gostava de saber que, mais tarde, estaríamos reunidos à mesa, enquanto ela carinhosamente ia servindo cada um de nós com um pouquinho daquele doce, que mais parecia um cristal de tão brilhoso e transparente.

Voltando pra casa, há alguns dias, lembrei-me do tal doce de mamão verde de minha avó. Entrei no supermercado e comprei alguns mamões bem verdinhos. Risquei-os da mesma forma que ela fazia. Deixei descansado. Mais tarde, enquanto eu ralava os pedaços do mamão, fiquei pensado no quanto aquele procedimento todo, o passo a passo daquela receita, trazia, de certo modo, ensinamentos simples para uma vida inteira. Minha avó, ao voltar de viagem com aqueles mamões verdes, já devia vir pensando, decidindo, o que fazer com eles. A escolha, por si só, já pressupunha caminhos diferentes, estratégias distintas a serem tomadas. Em alguns momentos, ela bem sabia, bastava apenas deixar o tempo agir. Quando não se pode fazer nada, além disso, é preciso tão somente ter paciência e saber esperar. Só mesmo o amadurecimento para imprimir essa sabedoria capaz de nos fazer compreender que, com o passar do tempo, mesmo a amargura e a dureza da vida podem se transformar em maciez e doçura. Por outro lado, em outras situações, a vida demanda atitudes mais rápidas e precisas. Não é possível se dar ao luxo de ver o tempo passar. Às vezes, o amargo tem mesmo é que sair na marra. Nem que pra isso seja necessário ferir, cortar a pele, para evitar que mais adiante tenha que se provar um dissabor maior. A sabedoria pode estar também na decisão de não esperar, de agir o quanto antes. Em certos momentos, é preciso saber tirar proveito das fases nem tão doces da vida. Levá-las ao fogo transformador. Fazer com que ganhem brilho e transparência. Para cada objetivo, sempre há uma atitude mais adequada a ser tomada. Ela, daquele seu jeito sereno, sempre escolhia a maneira mais sábia de lidar, seja com os mamões verdes ou com as questões mais complicadas da vida. De mamão maduro não se faz doce, ela dizia. Naquele dia, enquanto eu esperava o doce pegar o ponto, olhando minhas mãos a conduzir aquela colher de pau, eu pude perceber o quanto de minha avó ficou em mim, no meu modo de encarar a vida. Na maneira paciente e parcimoniosa em que tento fazer minhas escolhas, em que traço minhas estratégias. Naquele tempo, enquanto eu corria pelos corredores daquele sobrado, alheio às mudanças que o tempo impunha não só aos mamões esquecidos na fruteira, mas a todos nós, eu nem me dava conta disso, mas as lições de vida daquela senhora já me invadiam a alma, da mesma forma que o cheirinho do doce de mamão verde, que hoje novamente se espalhou por minha casa, fazendo-me sentir a mesma paz que sinto desde outrora.

domingo, 1 de julho de 2012

Deixa eu te amostrar!

Acabara de concluir seu cursinho de português avançado. Gabava-se o tempo todo por falar corretamente. Sabia aplicar como ninguém as novas regras de hifenização. Nunca flexionava erroneamente o verbo haver no sentido de existir. Sempre aplicava corretamente as expressões “ir ao encontro de” e “ir de encontro a”. Escrevia “embaixo” junto e “em cima” separado. Estava enfim preparado!
Naquele dia, tão logo saiu de casa, foi abordado por um vendedor de facas, tesouras, canivetes, cortadores de unhas e outras quinquilharias.
— E aí, gringão! Num tá afim de comprar uma tesourinha, uma parada pra cortar as unha, não? Dá um help aí pro teu camarada, pra mim sustentar os menino.
— Desculpe-me, senhor. (Nunca usava próclise no começo de frases). Estou às pressas. Indo ao cinema com o intuito de assistir a um filme.
O vendedor saiu andando atrás dele e, com uma tesoura na mão, insistia:
— Tá bom. Só vou te amostrar, então!
Quando o vendedor falou isso, o gringo saiu em disparada.
                — Tirar-me uma amostra?! Meu Deus, como assim?
O vendedor, sem entender nada, foi correndo atrás, com facas e tesouras na mão, gritando:
— Para, sangue bom. Só quero te amostrar!
Correndo ainda mais desesperado, esquivando-se por entre as pessoas que circulavam pela rua, o gringo escorregou, caiu e bateu com a cabeça no chão.
Quando abriu os olhos novamente, ainda meio tonto, percebeu que estava deitado numa cama de hospital. Sim, provavelmente estavam ali o médico e a enfermeira. Teve vontade de correr novamente, mas mal conseguia se mexer.
— Então, como estamos? Tudo em paz?
Perguntou-lhe o médico. E, logo em seguida, sorriu-lhe a enfermeira:
— Consegue me ver? Quantos dedos tem aqui?
Desejou sumir dali. Não teve coragem de responder nada. Certamente, o que ele temia já havia acontecido. Mas não sentia nenhuma dor. Como isso era possível? Deveria estar ainda sob os efeitos da anestesia, pensou. Permaneceu calado. Com os olhos vidrados. Respiração ofegante. Muito inquieto. Começou a se debater descontroladamente, quando imaginou o que poderia ter-lhe sido extirpado.
— Doutor, os batimentos?! Estão muito acelerados. A pressão está subindo demais.
— Depressa, enfermeira. Sedativo na veia.
O gringo rapidamente se acalmou e voltou a dormir.
Mais tarde, quando acordou e deu de cara com o tal vendedor, não suportou. Arrancou soro, fios, sensores e saiu gritando pelos corredores do hospital.
— Oh my God. Help! Socorro! Este louco novamente atrás de mim, ameaçando me amostrar, me arrancar um pedaço?! De novo não, please. Me tira daqui.
De tão nervoso, não conseguia pensar em próclise, mesóclise, ênclise, nada disso. Só parou depois de ter sido amarrado numa camisa de forças.
O gringo nunca mais foi o mesmo. A cada dia, cisma que alguém o persegue, pedindo-lhe uma amostra do seu corpo, querendo arrancar-lhe alguma parte. Nunca tem coragem de apalpar a tal parte imaginada.
Não conseguiu conviver com a dúvida. Passa os dias, pra lá e pra cá, pelos corredores do hospício, correndo atrás das enfermeiras, cantarolando coisas do tipo:
— Antes de “p” e “b” só se usa “m”. “Quem vai a e volta da, crase há. Quem vai a e volta de, crase para quê?”. “A, ante, perante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, por, sem, sob, sobre, trás...”
Enlouqueceu pela obsessão em falar corretamente a língua portuguesa.
Já o pobre do vendedor teve de dar boas explicações na delegacia. Acabou aprendendo na marra a diferença entre amostrar e mostrar. Hoje, para não criar maiores confusões, evita regionalismos. Opta, atualmente, por sempre fazer uso da norma culta.

Leia também:
Norminha, curta e grossa!
Querido, com a língua não?!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Precisamos de um mundo mais estranho!

Il postino, Itália, 1994
Uma das melhores cenas do filme “O carteiro e o poeta”, para mim, é a que o poeta Pablo Neruda, conversando com seu carteiro, de frente para o mar, declama um poema que fala do próprio mar. O carteiro ouve o poema atentamente e quando o poeta lhe pergunta o que ele havia achado, ele responde: “estranho”. O carteiro então explica que havia achado estranho não o poema, mas a sensação, pois conforme o poeta recitava a poesia, ele sentia-se como que enjoado, mareado, como se ele mesmo fosse um barco navegando sobre aquelas palavras, que também iam num vai-e-vem, feito ondas no mar. O poeta então alerta para o fato de o carteiro ter acabado de fazer uma metáfora. Metáfora, palavra que há poucos instantes o pobre carteiro sequer havia ouvido falar.


A poesia é então esta metáfora que nos transporta para esse universo estranho que se encontra escondido nas entrelinhas das palavras propostas pelo poeta. A poesia, como de fato será vivenciada pelo leitor, não está ali escrita, não existe. Em verdade, ela nasce no exato momento em que o leitor a lê e se deixa levar, se deixa embriagar, entorpecer por aquelas palavras. Um poema é por assim dizer um sem fim de possibilidades, pois cada um de nós é único e se deixará transportar para um lugar único, particular. A poesia depende do nosso olhar. Apesar de estar formalmente fora de nós, ela nasce dentro de nós. As palavras penetram nossos olhos, nossos ouvidos, ressonam em nossas mentes, nossos corações, causando-nos certo incômodo, provocando-nos sensações estranhas, não necessariamente ruins, mas que nos fazem sentirmos vivos, pois acessam nossa alma. E é nesse exato instante que a poesia nasce dentro de nós. Nesse momento, já não somos mais o leitor e o poeta, somos o terceiro que surge desta relação mágica. Somos um. Somos únicos. A poesia nasce desse encantamento, dessa magia, desse mistério. E viva dentro de nós, ela nos altera de alguma maneira. Transforma-nos enfim.


A essência da poesia está por aí, flutuando entre nós, feito o pólen de uma flor, que o vento leva e faz passar bem suavemente diante de nossos olhos, querendo fecundar-nos a alma. No entanto, a poesia só ganha vida quando nossos olhos captam essa sua essência. Para tanto, é imprescindível que ela nos encontre ávidos, férteis. Prontos a sermos fecundados. Disponíveis a enxergar a metáfora. Dispostos a sentir a tal estranheza. A beleza do mundo não está no mundo em si, ela nasce e vive dentro de nós. Depende do nosso olhar. Portanto, é preciso ter olhos de enxergar a essência que flutua e roga por se tornar poesia.


Existem muitas formas de encarar a vida. Ao poeta é negada a chance de escolher dentre estas muitas formas. Sua sina é ver poesia em tudo. O poeta é esse um que quer nos fazer enxergar um mundo mais belo, onde o simples, o cotidiano, o corriqueiro, e até mesmo a dor e o sofrimento, querem ser enlevados. O poeta ilumina-nos a visão e nos permite apreciar um mundo que só a sua lente é capaz de fotografar. Feito guia, ele nos conduz por este mundo de contrastes, onde a alegria e a tristeza vivem de mãos dadas, onde a morte é necessária ao sentido da vida. Assim, quando nos deixamos guiar pelas mãos do poeta, quando nos entregamos à sua forma peculiar de encarar o mundo, somos contagiados pela essência da poesia e passamos também nós a enxergar esse mundo mais belo, mesmo que árduo e cansativo em certos momentos. E, ao nos deixarmos fecundar pela poesia, somos também poetas, pois só assim a poesia perpetua-se, mantém-se viva entre nós, não se extingue. Por isso, fiquemos atentos, pois sem a poesia o mundo não se sustenta. Tenhamos então olhos de poesia. Talvez, o que estejamos precisando é justamente desse mundo mais estranho. Enfim, deixemo-nos  tomar pela sua estranheza.


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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Rumo à Janela do Céu


Estávamos começando a percorrer uma trilha que nos conduziria à cachoeira conhecida como Janela do Céu. A caminhada seria pesada, já sabíamos. Alguns quilômetros sobre um solo pedregoso, sob um sol escaldante. Muitos obstáculos a serem superados. Altos e baixos. No entanto, íamos falando de tantas histórias vividas, observando aquela paisagem que se apresentava tão verde e vigorosa, que mesmo cansados, nunca pensamos em desistir. As nuvens naquele imenso céu azul moviam-se de tal maneira, desenhando a cada instante um novo cenário sobre nossas cabeças, que o caminho parecia-nos sempre novo. Flores se debruçavam à beira da estrada, fazendo-nos parar para apreciá-las e esquecer a árdua caminhada que ainda havia pela frente. Certamente, em algum lugar por ali, perto de nós, um rio corria alheio, discreto, e desaguava lá na tal cachoeira, e nós sequer nos dávamos conta disso.

Naquele mesmo dia, eu pensei em algo que então não conseguiria explicar, e ainda hoje talvez não o saiba efetivamente. Pensei no quanto aquela experiência, aquela caminhada, aquela dia de convivência entre amigos de longa data, era sinal, sacramento, de algo muito maior, mas que de certa forma estava presente em detalhes em cada um daqueles momentos que estávamos vivendo em apenas um dia, naquela simples caminhada. O que estou tentando dizer é que contando a história daquele único dia, eu estaria certamente falando de uma história de anos. Como se aquela trilha, aquele dia comum, fosse um uma célula, um microcosmos, um filme, uma poesia, algo que contém em si, de forma mística, mágica, religiosa talvez, uma dimensão que vai muito além de uma simples caminhada. A parte contendo o todo.

Talvez, eu me faça entender melhor, se disser que “certo dia, eu decidi trilhar um caminho que levasse a uma janela, que diziam ser a janela de onde se poderia avistar o céu. Pelo caminho, fui encontrando pessoas que seguiram comigo em busca do mesmo objetivo. No início, quando ainda tínhamos apenas a ideia, a empolgação, o sonho, a caminhada nos pareceu tranquila. A paisagem que ladeava a estrada, o sol que nos aquecia, a brisa refrescante eram de uma beleza realmente animadora. No entanto, depois de algum tempo de caminhada, o cansaço começava a nos abater, a nos subtrair as forças, e o desânimo dava o ar de sua graça. Mas cada um de nós, sentia-se responsável por não deixar o outro desistir. Queríamos encontrar a janela que dava para o céu. Respirávamos fundo. Seguíamos em frente. A estrada era sinuosa, com muitas pedras pelo caminho. Montanhas a serem transpostas. Embrenhamo-nos por caminhos escuros, tenebrosos. Mas estávamos juntos. Superamos e seguimos em frente. Em momento algum víamos o rio, mas sabíamos que ele estava por ali. Passando. Ao longe, avistávamos pessoas que também caminhavam rumo à mesma janela. Em certos momentos, tivemos dúvidas sobre que caminho seguir, em outros temíamos estar perdidos. Fazíamos as escolhas e juntos seguíamos em frente. Mesmo quando pensamos estar bem perto, duvidamos. Afinal, nunca havíamos estado ali. Não conhecíamos de fato a tal janela. Mas intuíamos sua beleza, tínhamos esperança. A fé nos guiava até ela. Finalmente, chegamos àquela janela, que se escondia por entre pedras e arbustos. No entanto, era preciso descer ainda mais fundo para irmos ao encontro da fonte de águas límpidas. Era preciso arriscar-se à beira do abismo para se chegar àquela janela que se abria ao céu. Mais uma vez, nos apoiamos. Demo-nos as mãos. E então contemplamos juntos aquela paisagem arrebatadora. E, diante de tamanha beleza, a estrada que nos levou até lá, as dificuldades do caminho, pareceu-nos muito pequenas.” Quem poderá dizer se o que relatei foi a aventura de um dia ou a história de uma vida? É justamente esta a minha tentativa de expressar o milagre daquele momento. Pois ali naquele dia, naquela caminhada, estavam os companheiros de uma vida, aqueles que trilham comigo a mesma estrada, estrada que cremos também vai dar numa janela que nos levará ao céu.

 Hoje, estou certo de que aqueles que estão ao meu lado, na trilha do parque ou na estrada da vida, não estão apenas porque eu escolhi ou fiz um convite. Nossas almas é que se encontraram, se reconheceram, se permitiram caminhar juntas. E nesse encontro de almas só há espaço para o amor e o respeito. Não há planos nem formalidades. Não espaço para mágoas, provocações e vingancinhas. Tudo precisa ser pessoal. É preciso cativar, cuidar, cultivar. Há limites a serem respeitados. Enfim, ser amigo é muito mais do que estar ao lado de alguém em uma trilha de fim de semana. Amizade é acima de tudo uma relação de confiança, de doação, de respeito. Por isso guardo com muito mais carinho as imagens, as lembranças da caminhada do que a exuberante beleza da Janela do Céu. O caminhar foi bem mais importante. Pois, ao meu lado estavam meus amigos, meus companheiros de viagem. E, junto deles, ainda que eu desanime, ainda que o caminho seja pedregoso e árduo, estou certo de que sempre hei de encontrar uma janela que me faça ver o céu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Meus mais doces bárbaros


Lembro-me de que vivia uma vida feliz.
Uma vida bem tranquila, cheia de coisas que me satisfaziam.
Cheia de bons momentos. Parecia que nada me faltava.
Cria que não podia melhorar!
Agora, não consigo mais entender, o que seria viver sem eles por perto!

Meu tesouro maior, a minha felicidade plena.
A razão da minha alegria. A luz que ilumina meus dias.
Talvez eles sejam a brisa que torna a minha caminhada mais serena.
Hoje, eles acendem em mim essa chama revigorante, essa coragem de seguir em frente.
Enternecem as minhas horas, tornam leves os meus dias.
Uma sensação de plenitude, de leveza, sempre me invade quando os tenho por perto.
Seus sorrisos largos, o carinho, o abraço, a pela macia, o beijo suave são dádivas divinas.

Deus me presenteou e me fez perceber o que realmente vale a pena.
Um amor que me transborda a alma, que me faz rejuvenescer.
Diante da inocência, da alegria, dos gestos tão espontâneos, da pureza de alma.
Ah, como poderia viver sem isso ao alcance?

Minha vida agora tem mais sentindo.
Agora, meus dias são mais bem vividos.
Riqueza de minha alma é o brilho de seus olhos dóceis.
Imaculada Virgem, peço-vos sem cessar.
Amparai-os, neste teu dia, minha Mãe Querida.
Não permitais que lhes faltem a graça e a paz que vêm de Deus.
Agora e sempre, protegei estes que são o meu tesouro maior.

(Tio Deda)

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe, fonte de minha energia química!

       Neste dia dedicado àquela que há tanto nos transmite seu calor, seu carinho e amor, aproveito para agradecer à minha mãe querida, por ter sido o reator em que minhas primeiras reações químicas puderam ser realizadas. Sem você eu não seria possível. Obrigado por não permitir que, a princípio, meu equilíbrio fosse atingido. Por ter sido a fonte de tantos reagentes, sem os quais minhas reações não seriam deslocadas no sentido de gerar mais produtos. Quem diria, mãe, que você me faria experimentar tão cedo o Princípio de Le Chatelier? Logo eu, que crescendo dentro de você ia provocando uma confusão só, aumentando cada vez mais a sua entropia, consumindo sua energia livre, afim de que todas aquelas minhas reações não-espontâneas pudessem acontecer e meu organismo tão complexo pudesse se formar dentro de você. Obrigado por abrigar por tanto tempo a imensa quantidade de reações orgânicas, com todos aqueles mecanismos complicadíssimos, as inúmeras reações bioquímicas e suas rotas metabólicas dificílimas. Obrigado por ter sido a primeira vizinhança do meu sistema. Por ter fornecido calor para minhas reações endotérmicas e ter absorvido o calor liberado pelas minhas reações exotérmicas, com tanto carinho e disponibilidade. Por todo suor evaporado para manter nossa temperatura ideal. Obrigado por ter me fornecido toda aquela solução amniótica, de pH e pressão osmótica perfeitos para o meu desenvolvimento no seu ventre. E por ter carregado aquele volume todo de solução por tanto tempo. Desculpe-me por ter roubado tanto do seu Ca2+, mas era necessário para a formação da minha estrutura óssea. Valeu também pelas quantidades de íons ferro, foi essencial para a formação do meu sangue. Sei também que foram muitas moléculas de glicose sendo oxidadas a CO2(g) e muito O2(g) reduzido a H2O(l), muita transferência de elétrons, para gerar tanta energia durante aqueles tantos meses de gestação. Tantas enzimas para catalisar aquelas reações essenciais ao meu crescimento dentro de você. Obrigado por ter realizado toda aquela força para provocar o meu deslocamento para fora do seu corpo, valeu pelo trabalho muscular realizado! Obrigado também pelo seio que forneceu meu primeiro coloidezinho, cheio de nutrientes e proteção imunológica. E, mais tarde, pela paciência e dedicação ao seguir tantas vezes os procedimentos experimentais para preparar tão pacientemente minhas mamadeiras de amido de milho, meus chazinhos de erva-doce, minhas papinhas. Foram tantas misturas, diluições, agitações constantes, extrações, filtrações, fusões, evaporações, banhos-marias, banhos de gelo, aquecimentos, resfriamentos, tomadas de temperatura, enfim, tudo para que eu ficasse bem alimentado e satisfeito. Obrigado por toda atenção dedicada para me manter dentro das normas padrões de segurança e higiene. Obrigado pela fiscalização incansável e tão eficiente dos meus resíduos sólidos e líquidos. Sei que foram muitas noites mal dormidas, tentando manter minhas condições normais de temperatura e pressão.

Talvez essa mensagem nem faça tanto sentido pra você, talvez você nem leia, pois nem vai entender muito bem. Mas, o que importa mesmo, e o que eu queria que você soubesse, é que sem sua energia, sem suas reações químicas na minha vida, eu nada seria. Obrigado por cada átomo fornecido, por cada mol de reagentes, por cada caloria gasta, pela relação perfeita entre termodinâmica e cinética que você possibilitou. Obrigado por manter o equilíbrio, quando necessário. Enfim, obrigado, por ter me fornecido sua fronteira diatérmica para que eu sentisse minha primeira transferência de calor, quando você encostou pela primeira vez seu rosto no meu, me aqueceu, e me fez perceber o quanto seria importante para mim, manter relações físico-químicas com você por resto da vida. Mãe, obrigado por fazer minha vida tão espontânea!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma pitada de sal

             Feriado, essa chuvinha fina que não passa, lembra-me de uma época em que, num dia como esse, eu acordava sem ter muito que fazer, e depois de tomar café da manhã num cantinho de mesa, entre panelas secando depois de ariadas, roupas tiradas da corda, ainda amarrotadas, aquela voz do locutor de programa de rádio AM já invadindo a casa desde cedo, eu ia me esquivando daquela confusão toda e subia pra casa de minha avó. Lá eu ficava às vezes apenas sentado na escadinha da área de serviço, vendo a chuvinha cair, trocando algumas palavras com meu avô, um tanto alheio à passagem do tempo, guardando aquele meu silêncio habitual. Em uma dessas oportunidades, eu ainda muito menino, vi minha avó preparando um mingau e pedi que me ensinasse a fazê-lo. Ela, com sua paciência de sempre, foi me dando todas as dicas. Depois de ensinar-me a receita completa e explicar cada detalhe de como preparar o mingau, ela disse que falaria então o segredo mais importante: “não se esqueça de colocar, por fim, uma pitada de sal!”. Obviamente que eu não consegui entender porque seria necessário acrescentar a uma receita doce uma pitada de sal. E mais ainda porque isso era tão importante. Então eu indaguei: “vó, mas pra que isso?”. Ao que ela muita sabiamente respondeu: “A pitada de sal aguça o sabor doce, a presença do sal torna o doce mais saboroso”. Na época, apenas registrei a informação. No entanto, como em muitas outras vezes, esses momentos de convivência com minha avó voltam à roda, à mente, e a maturidade me faz recriar, reinventar e reler a beleza de suas palavras e ensinamentos.

Minha avó acabara de me ensinar sua filosofia do contraste. A presença do oposto, do antagônico é sempre necessária para valorizar e dar sentido àquilo que efetivamente é a razão de nosso interesse, o objeto principal de nossa atenção, de nossos anseios e desejos. Há pouco tempo, li um texto de Bacherlard que também dizia alguma coisa neste sentido, neste caso, algo sobre a relação essencial entre a sede e a água. A sede é o que dá sentido à água. Só o sedento sabe como ninguém valorizar a água. Ou como diz o dito popular, “o melhor tempero é a fome”. A fome aguça o sabor. A treva traz significado à luz. Dias de chuva tornam os posteriores dias de sol ainda mais belos. A ausência dá sentido à presença. Assim, por exemplo, a saudade se torna coisa boa de sentir quando traz pra dentro da gente o que não se tem mais por fora. É o mecanismo de trazer o longe pra perto. Tornar presente o ausente, concreto o abstrato. Parece que essa é a lógica da vida. A necessidade de contrastes.

No entanto, a gente vive tentando fugir dessa realidade de antagonismos, sempre presentes e tão importantes de serem vivenciados. Parece que não queremos aceitá-la nunca. Não educamos e nem somos educados para ela. Vivemos a ilusão de que a felicidade é apenas um destino a ser alcançado e não uma estrada a ser percorrida. Idealizamos a felicidade como um estado de alma, onde a dor, o sofrimento, a tristeza não são possíveis de serem admitidos. Quando na verdade, é sabido que momentos tristes também constroem uma vida feliz. Fico muito angustiado, por exemplo, quando vejo pais criando seus filhos na infrutífera tentativa de protegê-los das decepções, dos percalços, da dor, e até mesmo da experiência da morte. Como se isso fosse possível. A dor, o sofrimento, a tristeza, obviamente, não são fáceis de serem vivenciados. Mas fato é que eles existem. Não temos como fugir. Lá em casa, graças a Deus, nunca nos foi negado o direito de experimentar a dor. Aprendemos desde cedo que a tristeza, o sofrimento, e mesmo a morte, faziam parte da vida. Minha avó sempre passou por estes percalços de forma muito digna. É claro que sofria, chorava. Mas nunca lamentava. Apenas respeitava, dava o tempo e importância devidos àqueles momentos. Mesmo quando perdeu filhos, não se entregou a ponto de sepultar com eles a sua alegria de viver. Encarava a dor com elegância. Pois, sabia que não era ela a responsável pelo sabor real da vida. A vida é doce, mesmo com suas pitadas de sal, ela sabia.

Por isso, seja essa de fato a grande sabedoria da vida. Entender que ela é feita de contrastes. Os quais são necessários, essenciais. Reais. O que não quer dizer que são fáceis. Mas é preciso vivenciá-los para que a vida imprima seu verdadeiro sentido. Por isso, é importante respeitar a dor, é preciso ter paciência, resignação e saber esperar o tempo dela passar. Porque ela passa. Sempre passa. A gente tem é que aprender a ter a medida certa. Buscar o tão cobiçado equilíbrio. A pitada de sal não pode ser tal que elimine o sabor doce do mingau, ensinava-me minha avó. O sal deve estar na medida certa. Nem mais nem menos. É preciso experimentar o amargo, o acre, afim de que se possa entender e verdadeiramente saborear o doce da vida. Talvez quando me alertou para aquele tal detalhe, minha avó não tivesse a verdadeira dimensão do quanto seu ensinamento seria importante para minha vida. E nem eu mesmo poderia supor.