terça-feira, 10 de julho de 2012

Querido, com a língua não?!


Doralice e Neves estavam casados há quase dez anos. Ele, professor universitário, doutor em Linguística. Ela, revisora de textos na redação de um importante jornal. Tinham um relacionamento daqueles que beiram a perfeição. Invejável. Gostavam muito de viajar, conhecer novos lugares, novas culturas. Frequentavam bons restaurantes. Adoravam música, cinema, teatro. Devoravam livros e mais livros. Assunto era o que não faltava para eles. No entanto, há tempos o sexo vivia naquela pasmaceira. Não era de hoje que precisavam dar uma apimentada nesse quesito.
— Ai Neves, meu amor. Eu não vou conseguir.
— Vai sim, Dorinha. Não custa nada tentar, vai?!
— Pra você é tudo muito simples. Mas isso vai de encontro a tudo aquilo que prego diariamente. Fere profundamente os meus princípios. Brincadeiras com a língua, eu não admito.
— Poxa, querida, entre quatro paredes, vale tudo!
Apesar da insistência de Neves, Doralice mais uma vez colocou mil obstáculos e não conseguiu realizar suas ideias sexuais mais recentes.
No dia seguinte, durante a sessão da terapia, a revisora comentou com a sua analista:
— Agora mais essa, Doutora. O Neves cismou com essa história. Insiste o tempo todo nessa maluquice.
— Relaxa, Doralice. Essa necessidade de associar dor e prazer é muito comum entre os casais. Tente trazer isso de forma benéfica ao seu relacionamento.
Doralice pensou no assunto o dia inteiro. Durante o almoço, decidiu comentar com Marluce, sua melhor amiga, que, como de costume, foi muito prática e objetiva:
— Ô Dora, pelo amor de Deus, né? Faz logo isso, criatura. Porque se você não faz, vem outra e faz. Aí, eu quero ver!
— Será, amiga? Será que ele é capaz de me trair por causa disso?
— Vai pagar pra ver? Vai?
A ideia ficou rondando sua cabeça o dia inteiro. Para ela, não era realmente simples. Não se imaginava naquela situação. Porém, não via muita saída. Precisava testar. Agradar o maridão.
— Alô, querido. Sou eu, Dorinha. Já está em casa? Então se prepara que hoje vai rolar.
—Hmmm. Pode deixar comigo. Você não vai se arrepender, meu amor.
Doralice chegou em casa, tomou um banho bem refrescante. Passou um óleo perfumado pelo corpo inteiro e vestiu uma camisola de seda, bem sensual. Foi para o quarto e encontrou com o Neves, que já estava deitado, esperando. Ela amarrou as mãos do marido na cabeceira da cama com lenços e ameaçou:
— É dor o que você quer sentir, meu amor? Não é?
— É sim, minha delicinha. Acaba comigo, vai?
A mulher ficou em pé sobre a cama, por cima das pernas do Neves, e quando começou a baixar a alça da camisola, falou:
— Então fica quietinho pra mim começar a tortura!
Quando o Neves percebeu o que sua mulher era capaz de fazer, ficou imediatamente excitado. A Doralice foi perdendo a vergonha, ficando cada vez mais ousada, voluptuosa, a ponto de ser capaz de gritar em seu ouvido:
— “Mendingo”, “mortandela”, “salchicha”, “rezistro”!
— Isso meu amor, assim você me enlouquece — dizia o Neves, enquanto se contorcia todo sobre o colchão.
A cada erro de concordância nominal, ou de regência verbal, ou de emprego de pronome, que sua mulher cometia ao seu ouvido, ele entrava em êxtase. Mal sabia ele que o pior – ou o melhor, quem sabe? – ainda estava por vir.
Doralice, já completamente nua, se debruçou sobre o corpo do marido e mandou o golpe mais poderoso, a tacada fatal, sussurrando ao pé do ouvido do Neves:
— Tá gostando, meu amor, ou prefere que eu “seje menas” violenta?
Ao ouvir isso, o Neves não se conteve de tanto prazer, puxou os braços com toda força, arrebentou os lenços que o prendiam à cama, e foi pra cima da Doralice com um furor sem precedentes.
Naquela noite, os dois se amaram como nunca. E a Doralice só se arrependeu de não ter cedido às loucuras do marido há mais tempo. Santa língua portuguesa!

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domingo, 8 de julho de 2012

Norminha, curta e grossa!


Norminha quase não frequentou a escola. Aprendeu a ler e a escrever na marra, anotando os recadinhos ao telefone, lendo os bilhetes deixados pelas patroas na porta da geladeira.
— Ô Dona Ester, esses menino vão acabar quebrando o vaso de pranta. Eu já mandei parar com essa bola, esses menino!
— Tá bom, Norminha, tá bom. A gente para. Mas não é pranta, é planta!
— Eu tô falando é pro bem de vocês mermo. Daqui um pouco, Dona Ester desce e planta a mão em vocês tudo. Falei certo, Dudu?
Era assim que ela ia aprendendo a falar seu português todo peculiar. Prestava atenção em tudo. Admirava a patroa conversando ao telefone. Ficava repetindo algumas palavras, muitas vezes, sem nem saber ao certo o que significavam. Apegava-se às palavras pelo som que elas produziam, pelo prazer que dava em dizê-las. Pelo gosto. Pelo tato.
— Então, Dona Ester. Hoje mermo, quando eu tavo soltando do ônibus, vim pensando no que a senhora falou comigo ontem.
— Saltando, Norminha. Você estava saltando do ônibus.
— Que saltando que nada, Dona Ester. A senhora pode até saltar do taxi, do seu carro. Mas de ônibus lotado, de trem abarrotado, a gente tá tão agarrado, que tem é que soltar mermo. Cadiquê se for tentar saltar, Dona Ester, chega é todo dia atrasada no serviço.
A patroa sorriu e foi obrigada a concordar.
— Você tem toda razão, Norminha.
— Sempre tive que aprender tudo sozinha nessa vida. Ninguém nunca me deu nada de mão beijada. Aí vem esses pessoal com história de regra pra cima de mim?! Na minha gramática, quem manda sou eu.
Norminha decidia se uma palavra estava certa ou errada, baseando-se nas sensações que tinha quando falava, ou nas experiências da vida. Quando encasquetava com alguma palavra, ninguém a fazia falar diferente.
— Pois então, Dona Ester, num fica tão preocupada. Essa história do Seu Nestor vai se resolver. É coisa permanente. Derrepentemente, passa!
Pra ela, permanente era passageiro. Coisa que uma hora acaba. Do mesmo jeito que acabava o efeito do permanente no cabelo da sua antiga patroa. Essa até D. Ester já sabia.
— Pois é, Norminha, é como você sempre me diz: “Encrespou, Dona Ester? Fica fria que é permanente. Logo, logo fica liso de novo!”. Ai, Norminha, só você mesmo pra me fazer rir.
— É isso ai, Dona Ester. Bola pra frente. A senhora num sabe o que é pobrema não. Pobrema é coisa de pobre. Feito praga, prego, pedreira... O que a senhora tem, Dona Ester, é poblema. E poblema é coisa simples, plana, leve feito pluma, que o vento leva e acaba num instante.
Norminha tinha uma alegria de viver que contagiava a todos. Nada a tirava do sério. E assim seguia seu caminho, “blindando” à vida, mesmo que ás vezes ela estivesse meio “compricada” . 


O desafio dos 5 dias...







quarta-feira, 4 de julho de 2012

Doce de mamão verde

Eles geralmente vinham embrulhados em papel de pão ou jornal. Ela os trazia quando retornava de alguma viagem curta à casa de amigos ou parentes. Aquela gente que morava na roça, que eles tinham o costume de visitar de vez em quando. Na maioria das vezes, ela tirava os mamões verdes da sacola e os colocava pra madurar na fruteira que havia no corredor. No silêncio da noite, os frutos sutilmente envelheciam. Entregavam-se silentes à inexorável ação do tempo. O verde ia se despedindo lentamente, dando vez a um amarelo cada dia mais forte e vigoroso. A dureza e o amargor rendiam-se à maciez e a doçura do fruto maduro. Era o tempo a conduzir, discreto, o milagre do amadurecimento. Passavam-se alguns dias, e ela, intuindo o desejo do fruto em se tornar alimento, separava um dos mais avermelhados, e colocava sobre a mesa para o café da manhã. Cortava então o mamão, de fora a fora, expondo aos nossos olhos atentos a beleza da fruta que se deixou transformar. Encaixando uma de suas metades na palma da mão, ela raspava o mamão com uma colher pequena, retirando-lhe as sementes, e o colocava sobre o prato do vovô, enquanto exaltava os benefícios da fruta no auxílio à boa digestão. Eu, que até então não tinha olhos de ciência, nada sabia a respeito da química, de enzimas e metabolismos, deixava-me levar apenas pelo encanto das incontáveis bolotinhas que feito bilhas rolavam pela mesa. Em silêncio, eu me divertia, tentando adivinhar qual delas alcançaria lugar mais distante sobre a mesa.

Se as frutas trazidas da roça não tivessem como destino a fruteira, era certo que no dia seguinte haveria doce de mamão verde. Neste caso, o ritual era outro. Era preciso vencer o quanto antes a avidez da fruta em se tornar madura. Não se podia esperar. Então, assim que chegava de viagem, ela já pegava os mamões ainda bem verdinhos e, com uma faquinha de ponta fina, riscava a casca de todos eles e os deixava descansando por algumas horas. Dizia ser necessário cortar a pele para deixar escorrer o amargor. Passado o tempo necessário, ela cortava os mamões verdes ao meio, retirava as sementes esbranquiçadas, e passava todos eles, com casca e tudo, num ralador bem velhinho, que ela guardava com todo cuidado, pois era o único que ralava os mamões da maneira que ela aprovava. O ralador, em verdade, não passava de uma lata de marmelada toda furada com prego e martelo, que havia sido presente de uma cunhada, que morava em Paty do Alferes, de onde geralmente vinham os mamões verdes. Geralmente, preenchia-se uma bacia bem grande com aqueles fragmentos de mamão ralado, que compunham um emaranhado de fiapos da fruta, que variavam seus tons desde o mais claro ao mais intenso dos verdes, que nem de longe lembravam o avermelhado do fruto maduro. Ela, então, cobria o mamão ralado com água e o deixava de molho durante a noite inteira. Na manhã seguinte, ainda bem cedo, lá estava ela à beira do fogão, a mexer o tacho com o açúcar e os fiapos da fruta, enquanto o vapor que ascendia, perfumava o sobrado com aquele cheirinho de doce de mamão verde e com nuances de cravo e canela. Naquele tempo, eu nem apreciava tanto assim o sabor do doce de mamão verde, mas gostava de saber que, mais tarde, estaríamos reunidos à mesa, enquanto ela carinhosamente ia servindo cada um de nós com um pouquinho daquele doce, que mais parecia um cristal de tão brilhoso e transparente.

Voltando pra casa, há alguns dias, lembrei-me do tal doce de mamão verde de minha avó. Entrei no supermercado e comprei alguns mamões bem verdinhos. Risquei-os da mesma forma que ela fazia. Deixei descansado. Mais tarde, enquanto eu ralava os pedaços do mamão, fiquei pensado no quanto aquele procedimento todo, o passo a passo daquela receita, trazia, de certo modo, ensinamentos simples para uma vida inteira. Minha avó, ao voltar de viagem com aqueles mamões verdes, já devia vir pensando, decidindo, o que fazer com eles. A escolha, por si só, já pressupunha caminhos diferentes, estratégias distintas a serem tomadas. Em alguns momentos, ela bem sabia, bastava apenas deixar o tempo agir. Quando não se pode fazer nada, além disso, é preciso tão somente ter paciência e saber esperar. Só mesmo o amadurecimento para imprimir essa sabedoria capaz de nos fazer compreender que, com o passar do tempo, mesmo a amargura e a dureza da vida podem se transformar em maciez e doçura. Por outro lado, em outras situações, a vida demanda atitudes mais rápidas e precisas. Não é possível se dar ao luxo de ver o tempo passar. Às vezes, o amargo tem mesmo é que sair na marra. Nem que pra isso seja necessário ferir, cortar a pele, para evitar que mais adiante tenha que se provar um dissabor maior. A sabedoria pode estar também na decisão de não esperar, de agir o quanto antes. Em certos momentos, é preciso saber tirar proveito das fases nem tão doces da vida. Levá-las ao fogo transformador. Fazer com que ganhem brilho e transparência. Para cada objetivo, sempre há uma atitude mais adequada a ser tomada. Ela, daquele seu jeito sereno, sempre escolhia a maneira mais sábia de lidar, seja com os mamões verdes ou com as questões mais complicadas da vida. De mamão maduro não se faz doce, ela dizia. Naquele dia, enquanto eu esperava o doce pegar o ponto, olhando minhas mãos a conduzir aquela colher de pau, eu pude perceber o quanto de minha avó ficou em mim, no meu modo de encarar a vida. Na maneira paciente e parcimoniosa em que tento fazer minhas escolhas, em que traço minhas estratégias. Naquele tempo, enquanto eu corria pelos corredores daquele sobrado, alheio às mudanças que o tempo impunha não só aos mamões esquecidos na fruteira, mas a todos nós, eu nem me dava conta disso, mas as lições de vida daquela senhora já me invadiam a alma, da mesma forma que o cheirinho do doce de mamão verde, que hoje novamente se espalhou por minha casa, fazendo-me sentir a mesma paz que sinto desde outrora.

domingo, 1 de julho de 2012

Deixa eu te amostrar!

Acabara de concluir seu cursinho de português avançado. Gabava-se o tempo todo por falar corretamente. Sabia aplicar como ninguém as novas regras de hifenização. Nunca flexionava erroneamente o verbo haver no sentido de existir. Sempre aplicava corretamente as expressões “ir ao encontro de” e “ir de encontro a”. Escrevia “embaixo” junto e “em cima” separado. Estava enfim preparado!
Naquele dia, tão logo saiu de casa, foi abordado por um vendedor de facas, tesouras, canivetes, cortadores de unhas e outras quinquilharias.
— E aí, gringão! Num tá afim de comprar uma tesourinha, uma parada pra cortar as unha, não? Dá um help aí pro teu camarada, pra mim sustentar os menino.
— Desculpe-me, senhor. (Nunca usava próclise no começo de frases). Estou às pressas. Indo ao cinema com o intuito de assistir a um filme.
O vendedor saiu andando atrás dele e, com uma tesoura na mão, insistia:
— Tá bom. Só vou te amostrar, então!
Quando o vendedor falou isso, o gringo saiu em disparada.
                — Tirar-me uma amostra?! Meu Deus, como assim?
O vendedor, sem entender nada, foi correndo atrás, com facas e tesouras na mão, gritando:
— Para, sangue bom. Só quero te amostrar!
Correndo ainda mais desesperado, esquivando-se por entre as pessoas que circulavam pela rua, o gringo escorregou, caiu e bateu com a cabeça no chão.
Quando abriu os olhos novamente, ainda meio tonto, percebeu que estava deitado numa cama de hospital. Sim, provavelmente estavam ali o médico e a enfermeira. Teve vontade de correr novamente, mas mal conseguia se mexer.
— Então, como estamos? Tudo em paz?
Perguntou-lhe o médico. E, logo em seguida, sorriu-lhe a enfermeira:
— Consegue me ver? Quantos dedos tem aqui?
Desejou sumir dali. Não teve coragem de responder nada. Certamente, o que ele temia já havia acontecido. Mas não sentia nenhuma dor. Como isso era possível? Deveria estar ainda sob os efeitos da anestesia, pensou. Permaneceu calado. Com os olhos vidrados. Respiração ofegante. Muito inquieto. Começou a se debater descontroladamente, quando imaginou o que poderia ter-lhe sido extirpado.
— Doutor, os batimentos?! Estão muito acelerados. A pressão está subindo demais.
— Depressa, enfermeira. Sedativo na veia.
O gringo rapidamente se acalmou e voltou a dormir.
Mais tarde, quando acordou e deu de cara com o tal vendedor, não suportou. Arrancou soro, fios, sensores e saiu gritando pelos corredores do hospital.
Oh my God. Help! Socorro! Este louco novamente atrás de mim, ameaçando me amostrar, me arrancar um pedaço?! De novo não, please. Me tira daqui.
De tão nervoso, não conseguia pensar em próclise, mesóclise, ênclise, nada disso. Só parou depois de ter sido amarrado numa camisa de forças.
O gringo nunca mais foi o mesmo. A cada dia, cisma que alguém o persegue, pedindo-lhe uma amostra do seu corpo, querendo arrancar-lhe alguma parte. Nunca tem coragem de apalpar a tal parte imaginada.
Não conseguiu conviver com a dúvida. Passa os dias, pra lá e pra cá, pelos corredores do hospício, correndo atrás das enfermeiras, cantarolando coisas do tipo:
— Antes de “p” e “b” só se usa “m”. “Quem vai a e volta da, crase há. Quem vai a e volta de, crase para quê?”. “A, ante, perante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, por, sem, sob, sobre, trás...”
Enlouqueceu pela obsessão em falar corretamente a língua portuguesa.
Já o pobre do vendedor teve de dar boas explicações na delegacia. Acabou aprendendo na marra a diferença entre amostrar e mostrar. Hoje, para não criar maiores confusões, evita regionalismos. Opta, atualmente, por sempre fazer uso da norma culta.

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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Precisamos de um mundo mais estranho!

Il postino, Itália, 1994
Uma das melhores cenas do filme “O carteiro e o poeta”, para mim, é a que o poeta Pablo Neruda, conversando com seu carteiro, de frente para o mar, declama um poema que fala do próprio mar. O carteiro ouve o poema atentamente e quando o poeta lhe pergunta o que ele havia achado, ele responde: “estranho”. O carteiro então explica que havia achado estranho não o poema, mas a sensação, pois conforme o poeta recitava a poesia, ele sentia-se como que enjoado, mareado, como se ele mesmo fosse um barco navegando sobre aquelas palavras, que também iam num vai-e-vem, feito ondas no mar. O poeta então alerta para o fato de o carteiro ter acabado de fazer uma metáfora. Metáfora, palavra que há poucos instantes o pobre carteiro sequer havia ouvido falar.


A poesia é então esta metáfora que nos transporta para esse universo estranho que se encontra escondido nas entrelinhas das palavras propostas pelo poeta. A poesia, como de fato será vivenciada pelo leitor, não está ali escrita, não existe. Em verdade, ela nasce no exato momento em que o leitor a lê e se deixa levar, se deixa embriagar, entorpecer por aquelas palavras. Um poema é por assim dizer um sem fim de possibilidades, pois cada um de nós é único e se deixará transportar para um lugar único, particular. A poesia depende do nosso olhar. Apesar de estar formalmente fora de nós, ela nasce dentro de nós. As palavras penetram nossos olhos, nossos ouvidos, ressonam em nossas mentes, nossos corações, causando-nos certo incômodo, provocando-nos sensações estranhas, não necessariamente ruins, mas que nos fazem sentirmos vivos, pois acessam nossa alma. E é nesse exato instante que a poesia nasce dentro de nós. Nesse momento, já não somos mais o leitor e o poeta, somos o terceiro que surge desta relação mágica. Somos um. Somos únicos. A poesia nasce desse encantamento, dessa magia, desse mistério. E viva dentro de nós, ela nos altera de alguma maneira. Transforma-nos enfim.


A essência da poesia está por aí, flutuando entre nós, feito o pólen de uma flor, que o vento leva e faz passar bem suavemente diante de nossos olhos, querendo fecundar-nos a alma. No entanto, a poesia só ganha vida quando nossos olhos captam essa sua essência. Para tanto, é imprescindível que ela nos encontre ávidos, férteis. Prontos a sermos fecundados. Disponíveis a enxergar a metáfora. Dispostos a sentir a tal estranheza. A beleza do mundo não está no mundo em si, ela nasce e vive dentro de nós. Depende do nosso olhar. Portanto, é preciso ter olhos de enxergar a essência que flutua e roga por se tornar poesia.


Existem muitas formas de encarar a vida. Ao poeta é negada a chance de escolher dentre estas muitas formas. Sua sina é ver poesia em tudo. O poeta é esse um que quer nos fazer enxergar um mundo mais belo, onde o simples, o cotidiano, o corriqueiro, e até mesmo a dor e o sofrimento, querem ser enlevados. O poeta ilumina-nos a visão e nos permite apreciar um mundo que só a sua lente é capaz de fotografar. Feito guia, ele nos conduz por este mundo de contrastes, onde a alegria e a tristeza vivem de mãos dadas, onde a morte é necessária ao sentido da vida. Assim, quando nos deixamos guiar pelas mãos do poeta, quando nos entregamos à sua forma peculiar de encarar o mundo, somos contagiados pela essência da poesia e passamos também nós a enxergar esse mundo mais belo, mesmo que árduo e cansativo em certos momentos. E, ao nos deixarmos fecundar pela poesia, somos também poetas, pois só assim a poesia perpetua-se, mantém-se viva entre nós, não se extingue. Por isso, fiquemos atentos, pois sem a poesia o mundo não se sustenta. Tenhamos então olhos de poesia. Talvez, o que estejamos precisando é justamente desse mundo mais estranho. Enfim, deixemo-nos  tomar pela sua estranheza.


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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Rumo à Janela do Céu


Estávamos começando a percorrer uma trilha que nos conduziria à cachoeira conhecida como Janela do Céu. A caminhada seria pesada, já sabíamos. Alguns quilômetros sobre um solo pedregoso, sob um sol escaldante. Muitos obstáculos a serem superados. Altos e baixos. No entanto, íamos falando de tantas histórias vividas, observando aquela paisagem que se apresentava tão verde e vigorosa, que mesmo cansados, nunca pensamos em desistir. As nuvens naquele imenso céu azul moviam-se de tal maneira, desenhando a cada instante um novo cenário sobre nossas cabeças, que o caminho parecia-nos sempre novo. Flores se debruçavam à beira da estrada, fazendo-nos parar para apreciá-las e esquecer a árdua caminhada que ainda havia pela frente. Certamente, em algum lugar por ali, perto de nós, um rio corria alheio, discreto, e desaguava lá na tal cachoeira, e nós sequer nos dávamos conta disso.

Naquele mesmo dia, eu pensei em algo que então não conseguiria explicar, e ainda hoje talvez não o saiba efetivamente. Pensei no quanto aquela experiência, aquela caminhada, aquela dia de convivência entre amigos de longa data, era sinal, sacramento, de algo muito maior, mas que de certa forma estava presente em detalhes em cada um daqueles momentos que estávamos vivendo em apenas um dia, naquela simples caminhada. O que estou tentando dizer é que contando a história daquele único dia, eu estaria certamente falando de uma história de anos. Como se aquela trilha, aquele dia comum, fosse um uma célula, um microcosmos, um filme, uma poesia, algo que contém em si, de forma mística, mágica, religiosa talvez, uma dimensão que vai muito além de uma simples caminhada. A parte contendo o todo.

Talvez, eu me faça entender melhor, se disser que “certo dia, eu decidi trilhar um caminho que levasse a uma janela, que diziam ser a janela de onde se poderia avistar o céu. Pelo caminho, fui encontrando pessoas que seguiram comigo em busca do mesmo objetivo. No início, quando ainda tínhamos apenas a ideia, a empolgação, o sonho, a caminhada nos pareceu tranquila. A paisagem que ladeava a estrada, o sol que nos aquecia, a brisa refrescante eram de uma beleza realmente animadora. No entanto, depois de algum tempo de caminhada, o cansaço começava a nos abater, a nos subtrair as forças, e o desânimo dava o ar de sua graça. Mas cada um de nós, sentia-se responsável por não deixar o outro desistir. Queríamos encontrar a janela que dava para o céu. Respirávamos fundo. Seguíamos em frente. A estrada era sinuosa, com muitas pedras pelo caminho. Montanhas a serem transpostas. Embrenhamo-nos por caminhos escuros, tenebrosos. Mas estávamos juntos. Superamos e seguimos em frente. Em momento algum víamos o rio, mas sabíamos que ele estava por ali. Passando. Ao longe, avistávamos pessoas que também caminhavam rumo à mesma janela. Em certos momentos, tivemos dúvidas sobre que caminho seguir, em outros temíamos estar perdidos. Fazíamos as escolhas e juntos seguíamos em frente. Mesmo quando pensamos estar bem perto, duvidamos. Afinal, nunca havíamos estado ali. Não conhecíamos de fato a tal janela. Mas intuíamos sua beleza, tínhamos esperança. A fé nos guiava até ela. Finalmente, chegamos àquela janela, que se escondia por entre pedras e arbustos. No entanto, era preciso descer ainda mais fundo para irmos ao encontro da fonte de águas límpidas. Era preciso arriscar-se à beira do abismo para se chegar àquela janela que se abria ao céu. Mais uma vez, nos apoiamos. Demo-nos as mãos. E então contemplamos juntos aquela paisagem arrebatadora. E, diante de tamanha beleza, a estrada que nos levou até lá, as dificuldades do caminho, pareceu-nos muito pequenas.” Quem poderá dizer se o que relatei foi a aventura de um dia ou a história de uma vida? É justamente esta a minha tentativa de expressar o milagre daquele momento. Pois ali naquele dia, naquela caminhada, estavam os companheiros de uma vida, aqueles que trilham comigo a mesma estrada, estrada que cremos também vai dar numa janela que nos levará ao céu.

 Hoje, estou certo de que aqueles que estão ao meu lado, na trilha do parque ou na estrada da vida, não estão apenas porque eu escolhi ou fiz um convite. Nossas almas é que se encontraram, se reconheceram, se permitiram caminhar juntas. E nesse encontro de almas só há espaço para o amor e o respeito. Não há planos nem formalidades. Não espaço para mágoas, provocações e vingancinhas. Tudo precisa ser pessoal. É preciso cativar, cuidar, cultivar. Há limites a serem respeitados. Enfim, ser amigo é muito mais do que estar ao lado de alguém em uma trilha de fim de semana. Amizade é acima de tudo uma relação de confiança, de doação, de respeito. Por isso guardo com muito mais carinho as imagens, as lembranças da caminhada do que a exuberante beleza da Janela do Céu. O caminhar foi bem mais importante. Pois, ao meu lado estavam meus amigos, meus companheiros de viagem. E, junto deles, ainda que eu desanime, ainda que o caminho seja pedregoso e árduo, estou certo de que sempre hei de encontrar uma janela que me faça ver o céu.