domingo, 19 de maio de 2013

Além do último capítulo...



Nestes dias de último capítulo, de fim de novela, cheguei à conclusão que felicidade não dá ibope. A gente só quer ver felicidade no final. Vida feliz é chata de acompanhar, não prende a atenção de ninguém. A gente se interessa pelo caminho, pelo esforço pra se chegar lá. Não pela felicidade em si. Certamente não faria sucesso algum uma novela, um filme, um livro etc que mostrasse a rotina feliz de um casal. Imagine se o último capítulo não fosse o fim da novela. Imagine chegar em casa toda noite, ligar a TV e, a partir de agora, ver a Morena e o Theo sendo felizes para sempre. “Hoje eu tenho que correr pra casa, não perco a novela por nada. É hoje que a Morena vai preparar um jantarzinho pro Theo. Depois ele vai ajudá-la a lavar a louça, e então ela vai trazer a sobremesa preferida dele e eles vão assistir a um filminho no DVD. Vão rir de coisas corriqueiras. Numa determinada cena, ele vai olhar pra ela, na certeza de que ela vai estar chorando, emocionada. Então, ela vai pegar no sono no colo dele. Quando o filme terminar, ele vai acordá-la, os dois vão pra cama e vão começar a dormir abraçados. Não vai ter sexo, essa noite. No meio da noite, ele vai sentir calor e vai tirar o braço e as pernas dela de cima dele. Ele vai roncar um pouco. Ela vai acordar e mexer nele para ele se virar e parar de roncar. De manhã, ele vai acordar primeiro e vai começar a fazer coisas para acordá-la. Os dois vão ficar implicando um com o outro por alguns minutos. Ele vai para o chuveiro. Ela vai ouvir o barulho da água, ainda na cama, e vai pro chuveiro também. Eles vão fazer sexo embaixo d’água. Depois do gozo, enquanto tomam banho, ela lembrará a ele que é dia de pagar o condomínio. Ele vai começar a se arrumar. Ela, então, vai preparar o café enquanto ele dá uma passada de olho no jornal. Ele faz que vai abrir a porta pra sair, ela segura a maçaneta e pede um último beijo. Ele sai. Ela fica olhando, escondendo parte do corpo por trás da porta, enquanto ele espera o elevador chegar. Então, ela volta pra cozinha e se depara com um pia cheia de louça pra lavar. Sobem os créditos”. No capítulo de amanhã, talvez eles tenham uma discussãozinha boba qualquer, vão ficar de cara feia por um tempo, aborrecidos, depois um ou outro vai ceder e a vida voltará ao normal. Vida normal, rotina. Ah, pelo amor de Deus, isso não dá ibope. Por que será que não? A verdade é que a gente passa a novela inteira torcendo pela felicidade da protagonista, mas a felicidade só tem graça se for alcançada no último capítulo. Só no último capítulo é que todo mundo casa, tem filho, enfim, todo mundo é feliz para sempre. Um pra sempre que acaba ali mesmo. Porque se continuasse, seria chato demais.

Pois é. Mas, às vezes, é isso que a gente faz da nossa vida também. Nem sempre o que deixa a gente feliz é o ser feliz de fato, mas é o fato de estar tentando ser feliz a todo custo. Na vida real, a gente torce pra ter aquela felicidade de último capítulo, mas quando ela é alcançada, a gente não sabe o que fazer com ela. Estar feliz com a rotina parece incomodar. A gente quer sempre mais. A gente quer mais emoção na trama. É claro que isso pode ser estimulante, motivador. Por outro lado, por que não querer mais do que se tem é estar acomodado? Estar satisfeito é sempre sinal de falta de interesse, de falta de ambição, de inércia? Eu, por exemplo, tracei objetivos na vida, desde muito cedo, e foquei meus esforços em alcançá-los. Hoje, em muitos momentos, vivo a sensação de ter chegado exatamente no ponto onde eu sonhei estar. Não que eu não tenha novos objetivos, que não tenha mais sonhos. Até porque eu planejei chegar aonde cheguei, justamente para poder sonhar mais e mais, e ter a possibilidade de ter tempo disponível pra praticar a realização de meus novos sonhos. É óbvio que viver acomodado, satisfeito com pouco, é ruim. Mas desacelerar depois que a fita foi rompida no ponto de chegada e comemorar, desfrutar da vitória, por alguns instantes, também não faz parte do processo? Estar satisfeito pode ser pura e simplesmente sinal de que se chegou lá. E isso não é ruim. O esforço a partir de então pode ser empregado na nobre tarefa de tentar manter a posição alcançada, fazer a tal felicidade de último capítulo perdurar por muito tempo. E isso não é tarefa fácil não! Pelo contrário, requer muita dedicação. Pois a nossa felicidade é de vida real, precisa continuar além do momento em que a palavra “fim” surge na tela. Precisa continuar na rotina, no dia-a-dia, nos momentos que não dão ibope, nos momentos em que ninguém correria pra casa pra acompanhar a nossa novela. Não dá pra se viver em função de ser feliz apenas no final. E, quando muito, mais uma vez na reprise do sábado. O que a gente quer é um pra sempre que continue na segunda-feira. Um pra sempre que suporte a rotina, que vá além do aviso de que essa história é uma obra de ficção, e que qualquer semelhança é mera coincidência. Porque, de fato, não é.
Gostou do texto? Que tal compartilhar?


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Estamos fadados ao Equilibrio. Não há como fugir!

Pode parecer tolice, coisa de louco, pensamento de nerd ou sei lá o quê, mas é muito reconfortante perceber que existem leis que regem o universo e seus processos físico-químicos. De fato, quando a gente se dá conta desta obviedade, a vida parece ter algum sentido. A forma como as coisas se repetem, os ciclos vitais, demostram que por mais complexa que seja a vida, ela não é aleatória. E isso é bom. A vida, o universo tem suas leis, seus princípios inabaláveis. 

Como professor de físico-química há algum tempo, quando explicando aos meus alunos alguma lei qualquer da termodinâmica ou, por exemplo, um processo eletroquímico qualquer, por diversas vezes, já me peguei pensando no quanto tudo isso é fascinante, o quanto tudo isso pode nos deixar mais seguros diante da complexidade da vida. A ciência pode nos trazer soluções, pode nos ensinar a viver, a encarar os problemas, a crer na solução deles. Existe um caminho natural, espontâneo, para tudo, podemos de fato confiar. Podemos confiar sempre nas leis da físico-química. Pelo menos dentro das condições a que estamos submetidos naturalmente. Não precisamos nos preocupar, por exemplo, que em algum momento, ao respirarmos ar, não haverá transformação química que nos forneça energia, pois sempre que o oxigênio reagir com a glicose nas condições de nosso organismo, haverá formação de gás carbônico e água, através de uma reação espontânea e, portanto, geradora de energia. Pode parecer idiotice, mas imaginem se isso não fosse verdade. Se houvesse a possiblidade da aleatoriedade, a possibilidade da reação ocorrer ou não. Podemos confiar que toda vez que uma placa quente tocar uma placa fria, o calor se transferirá da placa quente para a fria até que uma temperatura intermediária e de equilíbrio seja atingida. A água de uma cachoeira sempre vai de cima pra baixo, um pneu furado sempre esvaziará, nunca encherá a ponto de explodir, apesar de tanto ar do lado de fora. Mas que conclusão óbvia? Sim, óbvia porque há leis que regem este nosso universo. Leis que se repetem e nas quais podemos confiar. 

Apesar de buscar sempre a condição mais desordenada, os sistemas desejam o equilíbrio. O equilíbrio é inexorável. A condição mais estável é aquela a que somos levados a atingir naturalmente. E isso é ensinamento valioso, quando concluímos que o que se estabelece em processos micro ou macroscópicos, certamente, se repete também em nossas vidas. Não há como fugir disso. É interessantíssimo quando nos damos conta deste fato. Pois, a forma como estamos inseridos nesse contexto, o cotidiano, acabam por banalizar essa capacidade que o universo tem de se repetir, de manter princípios sólidos que regem suas transformações, das mais simples às mais complexas. Tudo nos parece normal demais, pois não nos surpreendemos mais com nada. Acostumamo-nos com o milagre da vida. Às vezes, me pergunto, por exemplo, como podemos não nos surpreender diante de um filete de água ao abrimos a torneira? Como não nos espantamos mais com esse líquido que não tem cor, não tem cheiro, não tem sabor, mas que existe, que é palpável, que escorre pela nossa garganta e alivia-nos a sede, refresca a pele, revigora. Como não nos surpreende mais o fato dessa mesma água congelar sempre à mesma temperatura, na pressão atmosférica, e que essa transformação se dê sempre da mesma forma, da superfície para o fundo, diferentemente de todos os outros líquidos, ou que seja necessária sempre a mesma quantidade de calor para fazê-la atingir sua temperatura de ebulição e se tornar vapor. Como não nos surpreendemos mais com o ar, invisível aos olhos, que penetra nossas narinas a cada segundo, atingindo nosso interior e provocando as mais diversas reações químicas essenciais à vida. Como nos acostumamos a ver o fogo com sua chama multicolorida, aquela energia toda gerada numa simples transformação química. Não seria isso um milagre? Como não fazemos mais a mesma festa, como não temos mais a mesma reação que tiveram nossos antepassados quando o viram pela primeira vez? Como podemos conviver com a ideia da terra a nutrir a semente, e permitir que aquela informação genética milagrosamente armazenada seja transmitida e as transformações se realizem a ponto de gerar a vida, criar raízes, fazer crescer a planta, que dará frutos e fornecerá as mesmas sementes novamente? Uma semente de mamão sempre dará origem a um mamoeiro, nunca a um pé de laranja ou de manga. Mas que ridícula essa conclusão, não é mesmo? Como podemos aceitar isso, sem achar tudo isso incrível, espetacular? Em algum momento, ficávamos muito curiosos com o fato de uma semente de feijão, colocada num pedaço de algodão umedecido, se rompesse e dali surgisse um caule, que crescia, gerando folhas, e quem sabe novas sementes, que ao caírem na terra, repetiriam o mesmo e exclusivo ciclo. Sim, quando éramos crianças, ainda achávamos isso fascinante, ficávamos horas a fio observando a vida a se transformar. As leis da natureza seguindo seu curso espontâneo. A água, o gás carbônico, as enzimas, os cloroplastos a absorverem a luz do Sol, a fotossíntese a construir moléculas e mais moléculas, silenciosamente, enquanto a criança dormia ao seu lado sem se dar conta do milagre do grão que germinava sem saber de ciência alguma. 

Concluí que não podemos perder esse olhar a respeito das coisas, não podemos deixar de nos surpreender, de aplaudir o milagre da vida. E mais do que isso, devemos de fato confiar nas tais leis da termodinâmica, nas leis que regem o universo, que estão nas transformações mais óbvias, que em algum momento se tornaram banais no nosso dia-a-dia, mas que vivem a nos gritar que tudo se resolverá, que tudo há de encontrar o EQUILÍBRIO, tudo se tornará mais estável. Não há como fugir, disto! Portanto, tenhamos fé no Princípio de Le Chatelier, porque desde que o mundo é mundo, o equilíbrio pode ser perturbado, mas não há nada que possa impedir que ele se reestabeleça. Mais cedo ou mais tarde. É só ter calma, é só esperar.


Gostou do texto? Que tal compartilhar?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Silêncio confortável

Por todo o período em que minha avó esteve internada, nós nos revezamos para acompanhá-la no hospital. Aquela noite seria a minha vez de servir-lhe de acompanhante. Durante a visita, a fisioterapeuta veio fazer sua avaliação e nos disse que era preciso que o acompanhante conversasse bastante com ela, pois assim a vovó exercitaria a fala. No instante em que a doutora falou isso, eu olhei pra minha avó e disse: “ihh vó, logo hoje que é a minha vez. Não foi uma boa escolha. A senhora sabe que eu quase não falo nada”. Vovó esboçou um sorriso e com imensa dificuldade balbuciou: “você sempre falou o suficiente, meu neto”. Aquelas palavras me confortaram imensamente. Minha avó me conhecia como poucos. Nunca fui o tipo de pessoa efusiva, que demonstra sentimentos com facilidade. Sempre fui, em verdade, muito ensimesmado, cerimonioso. Causam-me desconforto e estranhamento até hoje pessoas muito expansivas, exageradamente íntimas, que necessitam a todo tempo de demonstrações de afeto, de declarações, de palavras. Sempre achei isso muito cansativo. Diante de minha avó, no entanto, eu sempre pude ser o mesmo menino calado, taciturno, curto de palavras, que gostava de subir à sua casa para ficar ao seu lado, em silêncio. Às vezes à beira da cama, vendo-a dobrar roupas recém-recolhidas do varal, outras vezes, encostado na maquina de costura, brincando com botões, carretilhas e retalhos, ou ainda, sentado à mesa, enquanto ela catava o feijão ou descascava legumes. Vovó não insistia em arrancar palavras de minha boca, não me enchia de perguntas o tempo todo. O silêncio entre nós era confortável. Ela compreendia que eu gostava muito mais de ouvir do que falar. “Meu filho, você não é de falar muito. Só observa.” Eu arqueava as sobrancelhas e sorria. Em silêncio.

Essa possibilidade de estar ao lado de alguém, podendo guardar meu silêncio, sempre me agradou. Desde menino, sempre pensei demais. A mente fervilhava, elaborava, analisava tudo, o tempo todo. Falar, para mim, sempre foi custoso demais. Até hoje. Trago em mim desde sempre esse desejo de silêncio, essa necessidade de aquietar-me. Pois somente quando me calo é que ouço a voz que fala dentro de mim. A voz daquele que, mesmo sendo eu, é um outro que mora em mim, que me conhece de fato, que me compreende e me aconselha. Aquele que se alimenta do meu silêncio, da minha mudez, que toma forma e habita meus pensamentos. Esse outro que surge no exato instante em que silencio. Preciso ouvi-lo. Sinto sua falta. Conto com ele. É ele quem me dá o equilíbrio, que me ensina a calar. Esse outro eu é quem segura firme as palavras que desejam sair de minha boca, e realimenta meus pensamentos, fazendo-os girar dentro de mim, transformando-os, aparando arestas, lapidando. É ele quem grita dentro de mim, tentando me proteger dos meus rompantes. É o tal que me faz respirar fundo, engolir a seco, e começa a contar comigo: “um, dois, três...”, sempre que pressente que hei de ganhar mais permanecendo calado. É obvio que nem sempre estou plácido, sereno, o suficiente para ouvi-lo. Mas é justamente nestes momentos em que não o deixo agir é que mais me arrependo. Falar demais sempre me faz muito mal. Assim como me incomodam profundamente pessoas muito prolixas e verborrágicas. Gente redundante, palavrosa, me irrita imensamente. Gosto muito de ouvir os que respeitam as pausas, que pensam antes de falar, os que permitem intervalos. Para mim, uma relação entre duas pessoas – seja ela qual for – atinge a perfeição quando o silêncio não causa desconforto ou constrangimento. Ter com quem falar é, às vezes, imprescindível, no entanto, ter alguém que consegue se calar ao teu lado é vital. Pois é na escassez da palavra falada que os pensamentos dialogam, as almas conversam. Meus amigos mais caros são esses que compreendem o meu silêncio, que respeitam a minha mudez intermitente, o meu exílio voluntário. São os que têm permissão para entrar na minha clausura, pois são capazes de caminhar ao meu lado sem fazer barulho. São aqueles que sabem ler os silêncios da minha cadência e não atravessam o meu ritmo. Sabem fazer soar com exatidão tanto as notas como as pausas dos meus compassos. Entendem a minha música.


Vovó e eu tínhamos esse refinamento. Ela conhecia o meu silêncio. Não precisava das minhas palavras para saber o que eu estava sentindo. Eram os nossos olhos que proseavam, trocavam confidências. O silêncio não incomodava. Naquela última noite em que estivemos a sós, quando lhe faltavam forças para dizer palavras, foi com o silêncio que nos despedimos. Foi porque aprendemos a silenciar que conseguimos trocar aquelas últimas palavras, sem dizê-las. Em pé ao lado da cama, enquanto eu olhava seu rosto, eu pensava no quanto eu amava aquela senhora, no quanto sua vida, suas estórias, seus ensinamentos tinham sido determinantes na construção da pessoa que eu havia me tornado. Ela me olhava nos olhos, como se ouvisse meus pensamentos. De novo, o silêncio. De minha parte, o silêncio habitual, das horas em que meus lábios cerram de tal maneira, que as palavras parecem não encontrar meios de escapar. O silêncio que minha alma necessita pra falar dentro de mim. Dela, o silêncio resignado, da impossibilidade física de falar. Nós ficamos um bom tempo, ali, de mãos dadas, olhando nos olhos um do outro. Trocando nossas últimas confidências silenciosas. Ela, então, num esforço tamanho, levou minha mão até o seu rosto e a beijou, com carinho. Suspirou profundamente. E, então, esboçou um leve sorriso. Apesar da tristeza que insistia em meu coração, eu intuí que se tratava de um momento muito especial. Com aquele beijo, com aquele leve sorriso, minha avó me dizia pela última vez o que nunca foi preciso de palavras para dizer. Naquele instante, eu me transportei no tempo, e vi novamente o menino que corria ao terreno baldio, catava três florezinhas no mato, corria pra entrega-las, e saía às carreiras, envergonhado, tímido. Naquele tempo, ela já me sorria e consentia com os olhos. O silêncio desde então prescindia das três palavras, as mesmas que meu coração ouviu naquela noite em que nos olhamos pela última vez. Ainda hoje, é esse silêncio confortável que ameniza a minha saudade, pois quando silencio é que ainda sou capaz ouvir a sua voz doce a trazer paz e conforto ao meu coração.

Gostou do texto? Que tal compartilhar?


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Aplausos ao tempo!

Apesar de termos desde sempre a plena consciência de que o tempo não para, vivemos praticamente alheios a este detalhe. Ainda bem que temos esta capacidade de abstrair o tempo, pois ela é sem dúvida a forma mais inteligente de se lidar com esta verdade inexorável que é a passagem do tempo. No entanto, o tempo parece querer nos fazer percebê-lo a todo instante. Para isso, ele se utiliza de suas artimanhas e mistérios sutis. E assim a vida vai apresentando-nos provas de que não há como fugir deste senhor que, sem a menor cerimônia, fazemos questão de evitar. Naquela noite, estávamos esperando o início do novo show que a cantora faria em homenagem à sua mãe. À mesma mesa, além de um companheiro de há tempos, estavam as duas senhoras que me falavam de sua amizade de mais de cinquenta anos. Amizade que nasceu em um tempo anterior ao sucesso de cada uma daquelas canções, imortalizadas na voz da mãe, que seriam interpretadas naquela noite pela filha, também cantora. De vez em quando, eu olhava o relógio para me certificar da hora. Estávamos ansiosos e, portanto, incomodados com o atraso no começo do espetáculo. Como sempre, preocupados com o tempo.

De repente, as luzes se apagaram. Soaram os primeiros acordes. Ouviu-se, então, depois de tanto tempo, a mesma ordem para que as redes fossem jogadas ao mar. Viram-se os mesmos gestos largos e circulares anunciando uma nova pesca milagrosa. “Valha-me Deus, Nosso Senhor do Bonfim. Nunca, jamais, se viu tanto peixe assim.” Por um instante, eu tive a impressão de ter ludibriado o tempo. De repente, fui tomado por uma sensação inexplicável, como seu eu tivesse tomado posse de uma lembrança que nunca foi minha. A emoção de reviver um momento que não vivi. Um déjà vu de algo nunca visto. Era como se o tempo estivesse me dando uma segunda chance, ainda que em verdade não tenha havido a primeira. De imediato, eu enxerguei o tempo a se mostrar naquele palco. Canções que ouvia desde menino, desde o tempo em que elas me encantavam apenas pela sonoridade, pois ainda não diziam nada sobre minhas histórias, sobre minhas lembranças. Durante todo o espetáculo, eu fiquei mergulhado nesse mistério. O tempo me levando a brincar em sua ciranda, convidando-me a girar em sua brincadeira de roda. Eu não tive escolha. “Vai como a criança que não teme o tempo”, a cantora grávida nos dizia. Sim, a cantora estava grávida. O tempo mais uma vez fazendo das suas. “Eu vi a mulher preparando outra pessoa. O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga”. Chamou-me atenção o ciclo. Fez-me lembrar da história do deus grego – Cronos – que engolia os próprios filhos com medo de que estes viessem a lhe tirar o trono e o poder. O implacável tempo a devorar tudo que ele mesmo produz. Mas a grande mãe – Reia –engana até mesmo o Tempo, afim de proteger seu filho Zeus. A luta de Cronos e Zeus, que faz o pai vomitar todos os filhos devorados, devolvendo à vida o que é imortal. “A vida é amiga da arte. É a parte que o sol me ensinou. O sol que atravessa essa estrada, que nunca passou.” A música, a arte, trazidas de volta pelo tempo a todos nós, pobres mortais daquela noite. “Nossos ídolos ainda são os mesmos. E as aparências não enganam não.” O paradoxo do tempo que não para, mas que, no entanto, parece gostar de se repetir. “Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar”. Ciclo. Ciranda. E a cantora seguia a nos dizer: “É você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem!”. Confundindo-nos a mente. E assim seguimos a noite, inebriados, fascinados, tontos de emoção.

Ao fim do espetáculo estávamos todos maravilhados com a beleza das canções, com a pureza e força daquela voz, com a coragem e ousadia da filha, que com personalidade e talento indiscutível mantém viva a arte e a memória da mãe. No entanto, o que aplaudimos de fato foi o espetáculo que nos proporcionou o tempo. O tempo que fez questão de assumir o papel principal naquela noite. O tempo que renova. Traz o novo de novo. O tempo que passa. O tempo que engole, rumina, metaboliza, transforma e devolve, vomita. Recicla. Aplaudimos o tempo, o senhor da razão, que cicatriza feridas, cura dores, ameniza saudades, adormece paixões. O tempo que pode tornar banal a maior das complexidades. O tempo, este senhor tão bonito, que com uma mão tanto nos tira – juventude, beleza, pele fresca –, mas que com a outra nos dá com tamanha generosidade: equilíbrio, parcimônia, sabedoria, liberdade.

Aplausos ao tempo, “compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”, que fez surgir os cabelos brancos na fronte do artista, do poeta, que esta semana completou seus setenta anos de idade, mas que, no entanto, nunca envelhece. O tempo que também esbranquiçou os meus cabelos, que também me transformou e me conduziu ao lugar que eu tanto sonhei. O tempo que me deu histórias, memórias, amores e dores, que tingiram de nuances mais intensos e encheram de significado aquelas canções, que hoje também são minhas, porque dizem de mim. E, como propôs o mesmo poeta, meu velho tempo, também eu quero entrar num acordo contigo e, para tanto, peço-te o mesmo prazer legítimo e movimento preciso, “de modo que o meu espírito ganhe brilho definido, e eu espalhe benefícios. Tempo. Tempo. Tempo. Tempo.”




Gostou do texto? Que tal compartilhar?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A festa tem que continuar...



Hoje, remexendo fotografias antigas, me deparei com umas fotos que registram um momento que por muitos e muitos anos se repetiu em minha vida. O beijo do vovô e da vovó nas festas de nossa família. Esse era certamente o momento mais esperado de todas as festas. Fosse aniversário dele ou dela, ou aniversário de casamento dos dois, a família inteira aguardava pelo momento do beijo. Era apenas um selinho. Suficiente para que a família toda fosse ao delírio. Era uma gritaria só. Vovó fazia aquela carinha de envergonhada, sorriso de canto de boca, olhar meio sapeca. E o vovô repetia a sequência de beijinhos, pra alegria de todos nós.

Naquele sobrado de nossa infância era assim, tudo era motivo pra festa. A gente se reunia o ano inteiro para comemorar aniversários, semana santa, dia das mães, dia dos pais, bodas, natal, ano novo. Nenhuma data era ignorada. Vovó se alegrava muito com a casa cheia. Minha mãe e minha tia, geralmente, passavam o dia na cozinha, ajudando a vovó a preparar a comida. À noite, a casa ficava lotada. Um entra e sai de bandejas e travessas pela cozinha. Todos ajudando a servir os convidados, enquanto vovó observava atentamente se todos já haviam sido servidos. Nós, as crianças, corríamos o tempo todo por entre as pernas dos adultos, catando um salgadinho aqui, um copo de guaraná acolá. Enquanto criança, minha preocupação era apenas essa, brincar, aproveitar o tempo com meus primos, correr, correr, correr, sem me dar conta do que estavam fazendo os adultos. Até que, de repente, minha mãe dizia, “vamos embora, vai pedir a benção aos seus avós.”. “Poxa, mãe, só mais um pouquinho!”. Eu descia com aquela cara de decepção e anunciava aos meus primos: “Não vou poder mais brincar. Já vou embora!”. Quando eu subia, a área já estava toda arrumada, vovó cortando e embalando pedaços de bolo pra todo mundo levar pra casa. “Bença, vó”. “Deus te abençoe, meu filho!”. Ela dava um beijo em cada um, e a gente se ia. Pra casa. Sem ela. Era ruim demais quando as festas acabavam. Mas, mesmo tristes, nós íamos pra casa, eufóricos, cansados de tanta brincadeira. Felizes. Sabendo que logo, logo, a festa começaria novamente.

Mas a vida vai passando tão depressa, que é quase imperceptível a mudança de papeis. O tempo que nós, crianças de outrora, nos tornamos adultos e passamos a nos divertir nas festas da família, apenas conversando, rindo alto, encarnando uns nos outros, enquanto as crianças continuam correndo por entre as nossas pernas, chega e a gente mal se dá conta. As mesmas brincadeiras, a mesma euforia de sempre. Vovó e vovô continuavam com seus beijinhos. E todos nós, adultos e crianças, de então ou de outrora, continuávamos ansiosos por este momento tão especial da festa. A alegria de minha avó era mais nítida, quanto mais apinhada de gente estivesse a casa. Ela não parava um instante sequer. “Mamãe, senta um pouquinho!”, “Vó, deixa que eu sirvo!”, e ela seguia como se não ouvisse. Sua alegria estava em festejar, em ter a casa cheia de filhos, netos, bisnetos, amigos, vizinhos. Era uma satisfação sem medidas. Assim, a festa seguia por boas horas. Até que se começava a recolher restos de comida, talheres e copos, a limpar mesas e cadeiras. Alguém ajudava a fechar a mesa antiga, recolhendo a parte dobrável que a fazia aumentar de tamanho, e colocando-a no lugar de sempre. Nesse momento, as crianças começavam a perceber que era hora de cessar a brincadeira. As mesmas carinhas de decepção e tristeza. “Não vou pode brincar mais, minha mãe vai embora”. Despedíamo-nos e voltávamos para casa, deixando mais uma vez a casa da vovó, mas levando a mesma alegria contagiante, a mesma sensação que ali, naquele encontro, naquela casa simples, com aquela gente toda reunida, em torno da vovó e do vovô, é que éramos mais felizes.

Quando a vovó partiu, e tivemos que nos despedir dela pela última vez, pensei, durante aquele momento de dor, de saudade, “a festa acabou”. E, desta vez, para sempre. Senti-me novamente como aquele menino, cuja alegria maior estava em chegar à casa dos avós, encontrar com as outras crianças, e brincar, sem se preocupar com mais nada. Veio novamente o mesmo aperto no coração, a mesma tristeza, de quando ouvia a voz de minha mãe me chamando pra ir embora. A festa acabou. Vamos embora pra casa. Sem ela. Mas, dessa vez, não havia a euforia, a certeza de que logo haveria festa novamente. No entanto, essa necessidade que minha avó tinha de celebrar a vida, sempre foi tão contagiante, que já havia se tornando vital também em cada um de nós. Não podíamos mais viver sem isso. A dádiva de tantos anos de convivência, o privilégio de termos aprendido, justamente com ela, a lidar com a morte e a saudade, não nos permitiu paralisar diante do chamado à vida. Naqueles primeiros meses, após sua partida, pareceu-nos entranho a princípio esse sentimento de continuar a festa. Mas pareceu-nos também muito incoerente agir de forma diferente. Ela mesma havia nos ensinado assim. Nós também tínhamos essa mesma alegria em receber, em comemorar, em estarmos juntos. Enfim, somos da raça dos que festejam, dos que celebram a vida. Mesmo respeitando a dor e o sofrimento. Mesmo sentindo saudade. Temos a mesma satisfação em reunir pessoas queridas. Um sentimento que transborda e parece contagiar os que estão por perto. Minha avó nos ensinou assim. Conviver com a saudade, sem deixar que ela minasse nossa alegria de viver. A morte não nos pode arrancar isso. A vida sempre nos convida a continuar. A vida impera, ela sempre nos demostrou isso. Logo compreendemos, então, que esta era a maior homenagem que poderíamos render a ela. Mantermos viva em nós a sua alegria pelo dom de estar viva.

Neste último fim semana, ao reunir minha família e tantos amigos queridos para comemorar mais um aniversário, foi que pude perceber o que sou, de fato, da linhagem daquela senhora, que tanto amava reunir a família, que tanto amava celebrar a vida. Pude me dar conta do quanto sua vida de dedicação e amor a todos nós nos preparou para continuar a caminhada, mesmo sem ter ela junto de nós, fisicamente. Seu amor pela vida preparou-nos, inspira-nos a seguir vivendo. Com saudade, mas tristeza. Assim, quando hoje nos reunimos em festa, ainda paira no ar a mesma sensação de completude, de felicidade plena, que sempre nos renovou, nos deu viço, força, para seguir em frente. E é essa alegria de estarmos juntos, essa vontade tamanha de sempre celebrar a vida, que nos sustenta e traz de volta a sua presença. Ela vive entre nós, novamente. É mesmo impossível não se deixar contagiar pela lembrança de sua alegria, não enxergar seu sorriso carinhoso, não sentir seu amor em meio a nós. Talvez tenha sido por isso que meu sobrinho, tão sensível como é, tenha se emocionado, quando nos despedíamos. “Por que você está chorando, meu filho?”, eu o perguntei, “Deu saudade da vovó, tio. Muita saudade!”. É como nos velhos tempos.


Gostou do texto? Que tal compartilhar?

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Bolo de Aniversário

No meu tempo de menino, em dias de aniversário, eu geralmente acordava cedo e já subia pra casa de minha avó. Quase sempre, eu a encontrava por detrás da mesa, que ficava na área de serviço, em meio a cascas de ovos, farinha de trigo espalhada, açúcar, pó Royal. Logo que eu aparecia, ainda com cara de sono, ela já abria aquele sorriso. Ela tinha um jeito de sorrir com os olhos, que encantava e aquecia o coração da gente. Ela largava tudo, limpava a mão no avental e vinha me beijar, abraçar, desejar coisas boas. Abençoar. Era o melhor abraço do dia. Então ela chamava o vovô, que saía lá de dentro da casa, e, também sempre tão carinhoso, vinha com aquela alegria, dar um abraço apertado, e aqueles muitos beijinhos que ele até hoje tem mania de dar. Eu, então, me colocava ao lado de minha avó, e ficava ali, observando. De olho na colher de pau e na bacia, cheias de massa crua, que ela me dava pra raspar e comer no final.

A receita estava na cabeça, nenhum papel, nada por escrito. Ela adicionava cada um dos ingredientes sempre na mesma ordem. Peneirava a farinha de trigo, separando os carocinhos que sempre sobravam ao final. Fazia aquele montinho de farinha de trigo no meio da bacia. E, depois, ia quebrando cada um dos ovos separadamente em outra bacia. “Um ovo estragado, pode botar tudo a perder”. Por fim, ela sempre testava o pó Royal, com um pouquinho de água. Se fizesse bolhinhas, estava bom. “Se o fermento não fervilha, o bolo não cresce”. Batendo sempre pro mesmo lado, sem parar, para o bolo não solar. Depois era só untar o tabuleiro, jogar a massa e levar ao forno para assar. De vez em quando, ela ia com um palito de fósforo e furava o bolo pra ver se já estava no ponto. Eu nunca estendia o porquê disso. Hoje, faço a mesma coisa. Depois dos bolos assados, era hora de confeitá-los com glacê e frutas. Aquele cacho de uvas bem grande no meio, meias-luas de maçãs e conchinhas de pêssegos em caldas e ameixas secas, imitando flores, coloriam a superfície do bolo. Mais tarde, era só enfeitar a mesa com refrigerantes encapados e docinhos, e cantar parabéns. Festejar. Pois era isso que a fazia mais feliz. Celebrar a vida, em meio à família. Casa cheia. Alegria transbordando.

O tempo foi passando, eu já não era mais tão criança, mas ainda guardava o costume de, no dia do meu aniversário, subir logo pela manhã para pedir-lhe a benção. O beijo, o carinho, o abraço apertado, continuavam tão bons quanto antes. O sorriso ainda mais carinhoso e encantador. E, mesmo depois de tantos anos, ainda a encontrava peneirando a farinha de trigo, medindo as xícaras de açúcar, entre cascas de ovos quebradas sobre a mesa, testando o fermento em pó. O bolo podia até não ser mais confeitado com glacê e frutas, mas sempre presente, era coberto do carinho e do amor, que só as avós conseguem nutrir pela gente. Para ela, sempre foi assim, dia de aniversário era pra ser comemorado. Não podia passar em branco de jeito nenhum. Ainda que fosse apenas com um bolinho pra tomar café. Mesmo nos momentos mais difíceis, quando ela poderia ter todas as justificativas para não festejar, ela festejava.

Ali, à beira da mesa enfarinhada, na barra do vestido de minha avó, eu ia crescendo e aprendendo seu modo de vida. Enquanto ela misturava ingredientes com tanto cuidado, cada um ao seu tempo, eu ia aprendendo que a vida é essa arte da mistura, em que cada ingrediente tem a sua importância na massa, e que é preciso saber dosá-los e acrescentá-los no momento mais conveniente. Entendia também que muitas vezes é preciso quebrar a casca para saber o que cada um tem por dentro, pois uma casca perfeita pode ocultar um interior estragado, apodrecido, que acrescido à massa pode comprometer o gosto doce do bolo. É preciso zelar, prevenir, proteger, para evitar adição daquilo que dentro de si não tenha nada de bom a oferecer à mistura. Compreendia que há coisas na vida que não precisam estar presentes em grande quantidade, mas é essencial que tenham a qualidade de nos fazer crescer. Aprendia que mesmo em momentos nem tão alegres, era preciso celebrar a vida. Vovó era incansável nesta arte de conviver com a alegria e a dor, sem deixar que uma se sobrepusesse à outra. A cada uma delas, ela dava o devido lugar e o respeito necessários. Tudo ao seu tempo. Sabia também de cor essa receita para a vida, ir adicionando tudo que a vida tem a nos oferecer, peneirando, eliminado as pedras do caminho, descartando o podre, o prejudicial. Dando o tempo necessário pra fazer a massa crescer, se transformar em algo leve, doce, mais fácil de digerir. Naquela casa, nunca nos fora negado o direito de conviver com a dualidade, tão presente no dia a dia, com a alegria e dor, com o nascimento e com a morte, com o riso e com o pranto. Por que tudo faz parte da vida. Tudo é importante na massa.

Mesmo depois de adulto, morando mais distante, sempre guardei o costume de passar o dia do meu aniversário na casa de minha avó. No sobrado de minha infância. O que me alegrava era passar aquele dia de forma simples, almoçar com a família, a tardinha comer aquele bolinho comum com café. Receber o carinho e abraço terno de minha avó. Numa dessas coincidências da vida, foi numa véspera de aniversário que eu tive de me despedir daquela senhora que tanto me ensinou sobre a arte do bem viver. De certa forma, aquele momento selaria para sempre a nossa relação tão especial. Um ciclo perfeito se completava. Naquele dia seguinte, eu acordei cedo, subi as escadas. Ela não estava mais por detrás da mesa. Não havia mais a mesa enfarinhada, as cascas de ovos espalhadas, o fermento. Não houve o sorriso encantador. Não houve o abraço. O sobrado estava vazio. Pela primeira vez eu tive medo de ter perdido para sempre o menino que durante anos subiu aquelas escadas em busca do carinho, do sorriso, do abraço, que revigorava, que renovava forças, que aquecia a alma. Mas isso já não era possível, pois o menino que por anos observou, guardando o silêncio habitual, também já havia aprendido a receita de cor, já havia captado os ensinamentos. A própria senhora havia nos preparado para aquele momento. Sua forma plácida, serena, respeitosa de lidar com a dor, com a morte, não nos permitiu agir de maneira diferente. A saudade, a dor da perda, nunca a fez paralisar. Nunca a fez perder aquela sua alegria de viver. Sua melodia, seu canto, seu jeito de olhar a vida, ainda pairavam sobre aquele lugar. Era preciso continuar a caminhada. Assim, no silêncio daquela manhã, parado sobre o portal de entrada da casa, fechando meus olhos, eu pude ver o mesmo menino de há tempos, sentado à beira da escada se lambuzando com a massa de bolo crua, que tanto havia esperado. Foi então que meu coração, ainda que saudoso e dolorido, se aqueceu novamente. Se o menino ainda permanecia por lá, por lá também estava a senhora que sempre lhe sorriu e encantou.


Hoje, como de costume, voltei ao sobrado para celebrar mais um aniversário. Na mesma casa, com a mesma família. Vovô ainda está por lá para dar os tais beijinhos. Minha mãe, minha tia, minhas irmãs, meus sobrinhos... todos em volta da mesma mesa. A felicidade que se resume em estar ali. Juntos. Pra mim, essa sempre foi a melhor forma de celebrar meu aniversário. E, em meio à alegria da celebração, é impossível não encontrá-la em meio a nós. Remontando a cena, é impossível não vê-la entrando e saindo daquela cozinha, preocupada se todos já tinham sido servidos. Com uma felicidade que saltava aos olhos. Porque se a família está reunida, se tem festa, se a gente é feliz assim, ela está por perto. Em nossos corações, uma vez aquecidos pelo seu amor, ela vive para sempre. Eu sinto isso.

Gostou do texto? Que tal compartilhar?


quinta-feira, 12 de julho de 2012

A pele que habito

Assisti em DVD há poucos dias ao último filme do Almodóvar, “A pele que habito”. Não pretendo fazer aqui nenhum tipo de crítica ao filme, pois estou longe de ter este talento, ou olhar. Gostei bastante do filme, pelo impacto que me causou. Gosto disso na arte em geral, de me sentir provocado. E, no caso deste filme, as provocações e sensações são variadas. No entanto, independente do que senti ao ver o filme, o melhor pra mim foi a metáfora, a mensagem subliminar, que ficou rondando minha mente após o término do mesmo. Apenas um dos inúmeros olhares possíveis. Bem particular, obviamente.

O motivo principal do filme é a relação que se estabeleceu entre um cirurgião plástico – personagem de Antonio Banderas – e sua paciente, a qual ele mantém trancafiada e monitorada por câmeras de vídeo em uma determinada área de sua casa. Além das visitas diárias do próprio cirurgião, nenhum outro tipo de contato com o mundo externo é permitido à tal paciente, a não ser a comunicação através de um interfone com uma espécie de governanta da casa. Depois de algum tempo, o médico se percebe completamente envolvido por sua paciente-prisioneira e, mesmo depois de tantas atrocidades cometidas, tem-se início uma suposta relação afetiva entre os dois. Então, ele se vê obrigado a ceder e permite a ela uma liberdade um pouco maior. No entanto, a esta altura do filme, fica difícil imaginar que eles conseguiriam levar uma vida normal, que seguiriam imunes àquela sucessão de erros, e que seriam felizes para sempre. De fato, não conseguiram.

Fiquei pensando no quanto aquele tipo de relação de domínio, de aprisionamento, de sequestro é mais comum no nosso dia a dia do que possamos supor. Pelo menos do ponto de vista metafórico, é claro. Quem de nós não poderia citar uma relação de sequestro psicológico, emocional? Relação em que uma pessoa, mesmo não estando presa fisicamente, vê-se completamente dominada por outra. Como se sua alma tivesse sido furtada, raptada. Ainda que não sejam sentidos literalmente na pele, os danos causados por uma relação como esta podem ser tão dolorosos e definitivos quanto aqueles sofridos pela personagem do filme. Danos estes que dificilmente se apagam, deixando marcas e trazendo consequências tais, que podem determinar para sempre as escolhas, os rumos a serem seguidos na vida de uma pessoa.

Este tipo de relacionamento parece seguir um velho e conhecido roteiro, percebido por muitos que estão de fora e, na maioria das vezes, ignorado pela vítima do dito sequestro emocional. Inicialmente, a pessoa se deixa entorpecer por algum motivo qualquer, seja ele, carência, paixão desenfreada, autoafirmação, ingenuidade, imaturidade, chantagem emocional, ou seja lá o que for, e mesmo que inconscientemente se deixa aprisionar pelo raptor de sua alma, que sutilmente a afasta do convívio social, do contato com amigos, familiares, e, por mais esdrúxulo que seja, consegue mantê-la distante até mesmo de pessoas muito próximas, como pai, mãe, irmãos, filhos. Por mais óbvio que pareça à grande maioria das pessoas à sua volta, a vítima do sequestro de alma dificilmente consegue enxergar a cilada em que se envolveu e, geralmente, quando se dá conta, ainda que relute, não tem energia suficiente para escapar daquela situação. Com o passar do tempo, quando parece não restar alternativa, acostuma-se. Muitas vezes – assim como num sequestro real – é comum que se estabeleça uma relação de dependência entre a vítima e o sequestrador, que pode até ser absurdamente classificada, por eles, como amor.

No entanto, uma relação amorosa que aprisiona é em sua gênese uma incoerência, uma mentira patética. Afinal o amor é essencialmente libertador. Não se pode imaginar que é possível amar alguém, impondo-lhe castrações, limitando seu crescimento intelectual, impendido que o outro desenvolva suas próprias impressões e opiniões a respeito da vida, afastando o outro do convívio social ou familiar. Enfim, fazendo-lhe refém de seus caprichos e acorrentando sua alma. Quem age assim, ilude-se a respeito do amor. Engana-se profundamente. É como um criador de aves, que prende um pássaro em uma gaiola, e regojiza-se com seu canto, sem se importar se é de alegria ou de tristeza a canção que ele ouve todas as manhãs. A verdade é que, por mais que se trate com cuidado um passarinho preso numa gaiola, dando-lhe a melhor ração, água fresca, as melhores condições de limpeza, por mais que se julgue tratá-lo com carinho, afeto, dedicação, o passarinho nunca perderá uma oportunidade de escapar. Pois o simples fato de tê-lo aprisionado já gerou desde o princípio uma relação desigual, de domínio, regida pelo medo, pela falta de confiança. E onde não há confiança, não é possível haver cumplicidade, não se cria o respeito, base imprescindível ao amor. Assim como o passarinho preso em uma gaiola, a pessoa que de alguma maneira tem sua liberdade cerceada, por mais que não demonstre, não cultiva outro pensamento senão o de se livrar das amarras e se tornar livre novamente. Assim, quando efetivamente enxergar uma possibilidade real de fuga, ela se arrisca, ganha mundo. Vai-se embora. Se não vai, é porque esqueceu que sabe voar. E se chegou a este o ponto, perdeu a essência. Não é mais pássaro, não é mais gente. E o que viveu nunca foi nem nunca será amor.


Amor é o que cultiva o jardineiro, que pacientemente cuida de seu jardim, e fica à espera dos beija-flores, que seduzidos pela beleza de suas flores, vêm em busca da doçura do néctar, e em troca oferece a ele a elegância e o encanto de seu balé flutuante. Amor é essa relação de doação, de troca, de entrega mútua. E, para que seja assim, não basta apenas ofertar o néctar, o mel, pois beija-flor preso em gaiola não baila, não voa. Morre à mingua. Para se apreciar a leveza de sua dança, é imprescindível deixá-lo livre. Quem corta asas, quem impede o vôo, definitivamente não ama. Apenas tenta satisfazer seus desejos egoístas e unilaterais. Não quer se submeter a riscos. Dá o mínimo e, no entanto, se acha no direito de usurpar o que o outro tem de melhor. Mas o amor não se dobra a caprichos e imposições. O amor é a escolha de ficar diante das inúmeras possibilidades de ir. O amor deseja fluir, para tanto necessita de espaço. Tem urgência de liberdade. Não sobrevive em gaiolas. Por isso, quem impõe barreiras, grades, ainda que emocionais, não ama. Engana-se. Mente para si mesmo. Vive sozinho, mesmo estando junto. Raptor de almas alheias, vê-se dominador, mas é dominado. Pensa-se livre, mas é cativo do medo de perder. Refém da angústia de ver sua vítima escapar. E, ela há de escapar. Mais cedo ou mais tarde. De um jeito ou de outro. Pois, não se aprisiona uma alma por toda a vida. Sua essência clama por liberdade. Não suporta o domínio de uma prisão imposta. Deseja ardentemente ser feliz. Quer reencontrar-se. E, ainda que habite outra pele, ainda que tenha de conviver com marcas indeléveis, toda alma guarda em si uma sede de amor. Essa força motriz que nos impulsiona e dá sentido à vida. Por isso, viva e deixe viver!

Gostou do texto? Que tal compartilhar?