quinta-feira, 19 de abril de 2012

Saudade, dor pungente!

Sob a luz primeira da manhã, a bela índia, a cunhatã, de cabelos negros luzentes, distraída e serena, banhava sua pele morena, no riacho de águas correntes.

Um também belo rapaz, destemido e audaz, teimava em aproximar-se de seu amor mais recente, a cabocla de seios fartos e de nudez inocente.

Assim como um alvorecer, antes da manhã se romper, por entre as folhas orvalhadas, lá se ia o viandante, de olhos verdes brilhantes, espiar a sua amada.

Como Iara, a sereia, ela fingia-se alheia, mas também o ansiava.
E, por detrás da igaçaba, a virgem índia o encantava com seus negros olhos de jabuticaba.

Era um romance impossível, de futuro imprevisível, já supunha o estrangeiro. Era um amor proibido entre a cabocla e um banido. Era um amor por inteiro.

Numa noite, num rompante, a cabocla e seu amante sucumbiram à intemperança. E sob a luz dum luar de prata, que alumiava a densa mata, entregaram-se à aventurança.

E, por entre os arvoredos, embrenharam-se sem medo que os pudessem alcançar. No coração da floresta, com o peito ardente em festa, puseram-se a se beijar.

A virgem de tez macia, que ao corpo de seu amor se unia, o possuía com avidez. Eis que no abraço, distraídos, abstraíram o perigo. E o inesperado se fez.

Um guerreiro enciumado, de coração dilacerado, diante de cena contundente, por despeito ou por vingança, cravou no fidalgo uma lança, que o feriu mortalmente.

O índio, prometido à virgem, acometeu-se de vertigem, ao ver que sua flecha de morte também sangrou, no abraço forte, a índia que ele amou.

Num afã desesperado, o guerreiro inconformado, clamou aos céus por Tupã.Que olhasse para o seu pranto e, por milagre ou por encanto, lhe salvasse a cunhatã.

E Jaci, que do alto luzia, compadeceu-se da agonia e creu no arrependimento. E ao índio outrora aguerrido, que ali se via perdido, propôs um encantamento.

O casal alanceado, a Lua traria ao seu lado, feito estrelas brilhantes. Se aquele guerreiro Tupi aceitasse para si a mesma dor lancinante.

Conta-se hoje na aldeia, que em noites de lua cheia, vê-se a alma do guerreiro. Que de tristeza varado, segue ali, resignado, às margens do velho ribeiro.

Sua alma ainda sem paz, desde então sofre incapaz de um mal que não tem cura. Por ter amado intensamente, sente a mesma dor pungente, que lhe enche de amargura.

Com o olhar perdido e sombrio, ele fita à beira-rio as duas estrelas distantes. E sofre de tal maneira, como se a mesma seta certeira, em seu peito apaixonado, lhe cravassem a todo instante.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sobre crocodilos e outros animais selvagens

Há poucos dias, assisti a um vídeo na internet por indicação de uma amiga. Um gatinho invade o espaço de um crocodilo em um jardim zoológico. O crocodilo se encontrava à beira de um lago, alimentando-se, o gato se incomodou com o fato e partiu pra cima do crocodilo, dando inúmeras patadas na cara do imenso réptil, que recuava, voltava a comer, enquanto o gato insistia em bater nele, até que, em certo momento, o crocodilo se recolheu pra debaixo d’água, desistindo da comida. As pessoas acharam incrível a coragem do gatinho, que enfrentou sem medo o crocodilo, colocando-o pra correr. Assim que vi a cena, me perguntei: quem é o verdadeiro herói desta história? Pois, na minha visão, surpreendente foi a atitude do crocodilo. O gato não passou de um inconsequente, que deu sorte de ter encontrado um crocodilo diferente, porque se o crocodilo o tivesse abocanhado, seria perdoado por todos nós, afinal de contas essa era a atitude que qualquer um esperaria do réptil irracional. No entanto, para surpresa de todos, o animal parece ter vencido seu instinto selvagem e recolheu-se ao fundo do lago. Inicialmente, pensei em escrever algo sobre esta atitude surpreendente do crocodilo, do quanto às vezes escondemos também um lado animal, instintivo e selvagem dentro de nós, que diante de certas situações, quando somos tentados a agir de forma agressiva, optamos pela não violência, até porque, diferentemente do que se espera de um crocodilo, atitudes sensatas deveriam ser comuns aos seres humanos inteligentes. Porém, acabei sendo levado à outra reflexão, quando li no jornal a história ocorrida com o jovem, Vitor Suarez Cunha, de 21 anos, morador da Ilha do Governador, aqui no Rio de Janeiro. O Vitor, assim com eu e a grande maioria das pessoas, deve ter aprendido na escola a temer crocodilos, pois como todo animal selvagem, os crocodilos agem por instinto de proteção e atacam quando se sentem ameaçados. O Vitor certamente não seria inconsequente como aquele gatinho que invadiu a jaula do crocodilo e importunou um animal sabidamente violento, implacável, escravo de seu instinto selvagem. Dentre outras coisas, o Vitor deve ter aprendido também na escola que seres humanos são animais classificados como racionais, pois são dotados de inteligência, livre arbítrio, isto é, podem optar por controlar seus instintos animais, portanto não devem agir de forma impensada. Diferentemente de crocodilos, os seres humanos, em princípio, são seres capazes de discernir, elaborar pensamentos, tomar atitudes sensatas. E, além disso, o jovem Vitor, pelo que parece, deve ter sido educado por uma mãe zelosa e preocupada em formar um cidadão solidário, preocupado com o próximo, digno e consciente de seus deveres e direitos, capaz de se indignar com a injustiça e com a maldade gratuita. Por isso, a ele pareceu muito natural, ao ver cinco rapazes tão jovens quanto ele espancando um morador de rua, reagir e tentar intervir de forma a evitar que os tais jovens ferissem o mendigo. No entanto, talvez o que Vitor não soubesse é que, assim como os crocodilos, os seres humanos podem ter atitudes também surpreendentes, inesperadas a um animal que se diz racional, atitudes completamente distintas daquelas que ele, Vitor, aprendeu que todo ser humano deveria ter. Os tais rapazes se incomodaram com o fato dele estar se metendo naquela história, derrubaram o Vítor no chão e deram inúmeros chutes em seu rosto. E só pararam porque um amigo do Vitor se jogou por cima dele na tentativa de protegê-lo e evitar uma tragédia ainda maior. O rapaz espancado teve que passar por uma cirurgia de mais de quatro horas, fraturou vários ossos da face e ainda pode ficar com sequelas em uma das vistas. Dois dos rapazes foram presos, um terceiro é considerado foragido e os outros estão sendo investigados. Quando indagado do porquê daquela atitude violenta contra o tal mendigo, um deles respondeu: “meu pai vai caminhar na praia amanhã e não iria gostar de ser incomodado por isso.” Então, eu me pergunto: que mundo é esse em que crocodilos não engolem gatos que batem na sua cara e seres humanos espancam violentamente, com o intuito de matar, mendigos ou jovens que se indignam com este tipo de violência gratuita? Como uma sociedade pode produzir jovens capazes de cometer tamanha atrocidade? Jovens de classe média alta, a princípio, estudados, que tiveram ótimas oportunidades na vida e que decidem espancar mendigos, empregadas domésticas, prostitutas, homossexuais. Que tipo de educação tiveram essas criaturas? Por que se acham no direito de resolver as coisas dessa maneira? Por outro lado, é de se surpreender também como ainda é possível educar, nesta mesma sociedade, seres humanos como o jovem Vitor, capazes de se indignar, de se incomodar a ponto de arriscar-se para defender um desconhecido, um desvalido qualquer, um mendigo. Se ainda fosse para proteger um cachorrinho peludo, fofinho, vá lá! Eu até entenderia. Mas um mendigo, Vitor? Quantos teriam esta atitude? Quem de nós não usaria a desculpa de que hoje em dia a gente não pode se meter, porque acaba sobrando pra gente? Quem de nós não seria indiferente? Afinal, mendigos fazem parte da paisagem, como postes, bancos de praça, latas de lixo. A gente logo se acostuma. A verdade é que, assim como o Vitor, não podemos ficar inertes às mazelas do mundo, temos que nos indignar com a injustiça, reagir contra a maldade. Temos que clamar por justiça. Cobrar do governo a aplicação da Lei, para evitar que pessoas como o jovem Vitor, que deveriam ser a maioria em nossa sociedade, tenham que se expor a este tipo de crime, por reagirem com indignação à violência gratuita praticada contra qualquer ser humano. Parece óbvio que qualquer animal, seja ele biologicamente classificado como racional ou irracional, que não consiga controlar seus instintos assassinos, que ataque pessoas na rua etc, deve ser preso, enjaulado. Crocodilos que matam até podem ser perdoados. Seres humanos que espancam seres humanos, não. Nada justifica. Que sejam, portanto enjaulados, como qualquer animal selvagem que invade a cidade. Ou será que já estamos vivendo numa selva e nem nos demos conta?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Preconceito se aprende desde criança!

Sempre questionei o fato de sendo Iemanjá uma divindade da mitologia africana, um orixá no culto de religiões originárias da África, sua imagem no imaginário popular ser a de uma mulher branca, de cabelos longos e bem lisos, a sair do mar. Iemanjá não deveria ser negra? Alguns me dirão tratar-se de questão de sincretismo, e eu ousarei discordar, porque diferentemente de outros orixás, que tem nos altares sua imagem associada aos santos católicos, essa imagem da mulher branca saindo das águas não é comum de se ver em altares das igrejas católicas.
Associei este fato a uma pesquisa feita nos Estados Unidos com crianças negras, que diante de bonecos brancos e negros, eram questionadas a respeito de coisas como quem era a mais bonita, a mais boazinha, a feia, a má. “Por que você acha essa a mais bonita?”, questionou o entrevistador, ao que a criança negra respondeu: “Porque ela é branca e tem os olhos azuis!”. É no mínimo intrigante o resultado da pesquisa. Para mim, demonstra o quanto a sociedade incute padrões na cabeça do indivíduo desde muito cedo, e como a gente é permissivo com relação a isso. Lembro-me de, quando muito menino, ter uma vizinha negra e outra loira, adorava brincar com as duas. Meus tios viviam me enchendo a paciência com aquelas coisas, fulana é sua namorada, vai casar com ela, etc. Como é nítido pra mim hoje a diferença no tom da provocação em relação a minha amiguinha negra e a minha amiguinha loira. Adultos despertando nas crianças coisas que elas mesmas nunca levam em consideração, quando na verdade deveriam ensinar desde cedo o respeito à diversidade, às diferenças.
Há alguns anos, eu assisti a um espetáculo teatral chamado Avenida Q, que é um musical da Broadway, adaptado pelos diretores brasileiros Charles Möeller e Cláudio Botelho, que tem de diferente, inicialmente, o fato de ser um musical envolvendo bonecos. O espetáculo foi fabuloso. A interpretação dos atores, a simbiose entre estes e os bonecos, que são, verdadeiramente, os atores principais do espetáculo era mesmo de impressionar. Fico aqui agora tentando me recordar de alguns momentos da peça e o que me vem à cabeça é a imagem dos bonequinhos, como se eles tivessem ali sozinhos em alguns momentos, apesar da manipulação ter sido realizada completamente às claras. Simbiose mesmo, no sentido biológico real, “relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes”. Porque aqueles bonecos tinham vida! Arte pura! Com preciosismo, zelo, cuidado nos detalhes. Só vendo mesmo pra entender.
A peça tratava basicamente de relações humanas, da plurarilidade, da diversidade e, principalmente, da presença do preconceito nessas relações. E, de certa forma, da hipocrisia da sociedade que se finge de politicamente correta pra esconder as misérias humanas. A peça trata com humor extremamente sutil e inteligente a nossa capacidade de achar graça da desgraça alheia – e aqui cabe ressaltar o enorme talento dos artistas brasileiros em adaptar o estranhíssimo humor americano, ou inglês, da montagem original à nossa realidade brasileira, carioca.
É realmente uma coisa muito esquisita. Não sei se é típico do brasileiro, mas é, no mínimo, interessante essa nossa tendência a fazer piada da desgraça dos outros e até da nossa própria. É sempre muito bom, quando a gente está na merda, encontrar alguém que esteja numa merda pior ainda. Como se costuma dizer hoje em dia, ‘fulano tá todo cagado, mas continua rindo!’. Eu mesmo, quando quero acabar com a alegria dos meus alunos, que riem quando tiram notas baixas, os chamo de hienas: estão na merda, mas não param de rir. Já perceberam, por exemplo, quando morre alguém famoso, a quantidade de piadas de humor negro (uma expressão nada politicamente correta!) que surge. ‘O que é o que é? Todo enrugadinho, branquinho, de olhos azuis e mora no fundo do mar?!’ Quem é que nunca riu de piada de preto, de viado, de mongolóide, de retardado, de aleijado, de português, de loira, de gordo? Ou melhor, de afrodescendente, de homossexual, downiano, deficiente mental, deficiente fisico, pessoa de nacionalidade lusitana, mulher de cabelos tingidos, obeso, para ser politicamente correto. Que é o jeito que a sociedade, muita vezes hipócrita, acaba por utilizar, de forma a amenizar com palavras mais elegantes, o preconceito, a intolerância que, na essência, nas entrelinhas, continua presente, indepentemente de expressões linguísticas mais rebuscadas ou não.
Mas é realmente impressionante como o nosso preconceito é tão intrínseco, tão espontâneo, na maioria das vezes. Esta semana, por exemplo, vi  no youtube, um humorista negro, fazendo o povo rir com aquelas típicas piadas de negro, e uma senhora então, ele conta, no fim do espetáculo diz a ele: ‘achei muito legal essa sua capacidade de rir do próprio defeito’. Ou então aquelas frases típicas: ‘pretinho de alma branca’, ‘ele é viado, mas é legal, respeita, não fica dando em cima’, ‘é maconheiro, mas é gente boa!’, ‘fulano é negro, mas adora uma lorinha’, ‘ah, para com isso, isso é coisa de viado!’, ou ainda, ‘é preta, mas o cabelo é bom’. Ou então aquelas coisas do tipo: ‘mas ô neguinha (ou criola) abusada!’ Como se atitudes abusadas fossem mais absurdas quando feitas por negros do que por brancos.
Faz-me lembrar da história que uma colega professora me contou, dizendo que, certa vez, ela disse pra uma amiga, negra, que ela era a mulher mais bonita que ela conhecia, e a tal amiga ficou muito feliz, e surpresa ao mesmo tempo, pois na maioria das vezes, as pessoas dizem: ‘você é uma negra muito bonita’, quando na verdade, querem dizer: ‘você, apesar de ser negra, é muito bonita’. Já que ninguém diz: 'você é uma branca muito bonita'.
Bastante ilustrativo, também, naquela noite do teatro, foi quando estávamos caminhando para a sala de espetáculo, no shopping da Gávea, num hallzinho do shopping, dois rapazes sentados num sofá, um com o braço sobre o ombro do outro, com atitudes de carinho mútuo, chamavam a atenção dos passantes. Duas senhoras, distintíssimas, super bem vestidas, com cabelos super laqueados, olharam a cena, se entreolharam e disseram: ‘meu Deus, que absurdo, onde é que nós estamos!’. As distintas senhoras entraram no teatro. Fico imaginado o que elas acharam da peça, que começava justamente tratando do preconceito ao homossexual. E depois ao negro, ao estrangeiro, ao judeu, ao peludo, ao viciado em pornografia da internet, etc, etc. Talvez, quem sabe, fossem elas, as tais solteironas escrotas, pilares da sociedade, citadas na peça. Senhoras da Gávea, mas com mentalidade suburbana, como diriam os preconceituosos.
A montagem acabou por me levar a refletir quantos erros ainda cometemos quando nos prendemos a certos padrões impostos pela sociedade, muitas vezes hipócrita e ignorante, ou  pelos costumes, pela tradição, etc. Até mesmo por leis e regras rígidas e, a princípio, bastante coerentes, ditadas por pessoas inteligentes, sensatas, mas que se apegam a uma verdade – com v minúsculo – e deturpam, muitas vezes de forma brilhante e embasada, a Verdade maior e absoluta que é o Amor, que, independente, de credo religioso, cor da pele, orientação sexual etc, deveria ser a essência de cada ser humano.
O que realmente é importante numa relação humana? O que torna realmente essa relação mais duradoura? A cor da pele, a preferência sexual, a orientação religiosa ou a tolerância, a paciência, a capacidade de conviver com as diferenças ou idiossincrasias de cada um? O respeito ao próximo, talvez seja a receita. Cada um de nós é único e conviver é uma arte. Penso que o sucesso de uma relação não está vinculado com a maior ou menor quantidade de defeitos do outro, mas com o nosso talento em lidar com eles, ou seja, o exercício da compreensão. Cada vez mais, estou certo disso. O sucesso das minhas relações familiares, amorosas, de amizade etc, nunca esteve no fato de meus pares serem brancos ou pretos, gordos ou magros, heterossexuais ou homossexuais, católicos, protestantes ou espíritas, mas sim na nossa capacidade mútua de conviver com nossas manias, de compreender nossas idiossincrasias. Nunca me preocupo realmente com esses padrões. Não que eu não seja uma pessoa preconceituosa. Nós somos naturalmente assim. Mas tento não guardar esse preconceito comigo, mando pra bem longe, todos os dias, todos os momentos.
Sinceramente, penso, que ao invés de trazer informações sobre cor da pele, sexo, naturalidade, nacionalidade, etc, seria bem mais útil em nossa carteira de identidade informações do tipo: levanta a tampa do vaso pra urinar? Aperta o tubo de pasta de dentes no meio? Deixa a toalha de banho molhada em cima da cama? Come fazendo barulho? Cutuca quando fala? Ronca ao dormir? Gasta dinheiro à toa? É sovina? É preguiçoso? Irritado? É honesto? Leal? Confiável? Enfim, coisas realmente importantes na convivência humana. Porque defeitos e qualidades, integridade ou mau caratismo, dignidade ou falta de vergonha na cara, senso de justiça ou falta de escrúpulos, não são privéligio nem de pobre nem de rico, nem de preto nem de branco, de judeu ou árabe, católico ou protestante, de homem ou mulher, de bicha ou sapatão. Dependem, mais do que qualquer outra coisa, da orientação educacional, dos ensinamentos de pai e mãe, da criação familiar, do que da cor da pele ou da opção – ou, melhor, orientação – sexual de cada um. Não é o fato de termos olhos castanhos, verdes ou azuis, ou até mesmo o fato de termos a capacidade de enxergar, que nos faz ver o mundo de forma diferente, com maior ou menor clareza, mas sim os ensinamentos e experiências que acumulamos no decorrer da vida. É tão comum vermos pessoas cegas, apesar da plena capacidade física de enxergar.
O importante é a busca de um rumo na vida, como ressalta o texto da referida peça. Um ideal nobre de vida, que nos faça enxergar o que realmente importa nas pessoas. O espetáculo a que me refiro, deixou-me a imagem de que somos responsáveis uns pelos outros. E que o nosso sucesso depende do sucesso do outro, ou seja, da dedicação, do cuidado que prestamos àqueles que carregamos nos braços, nossos amigos, nossos semelhantes, nossos pares. Como o ator ou a atriz, que dão vida aos bonecos, e nos confudem a ponto de questionarmos quem conduz quem nessa empreitada. Literalmente, a arte de conviver.
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Escrevendo esse texto, na época, acabei por me lembrar de meus amigos todos, brancos, negros, morenos, mulatos, hetero, homossexuais, católicos, crentes, espíritas, ateus. Lembrei-me de uma amiga em especial, que em certa época da minha vida foi a razão da alegria de meus dias, a amiga de todas as horas, da alegria, da tristeza, da saúde, da doença. Crescemos juntos e nos tornamos seres humanos especiais juntos. Naqueles dias, ela havia acabado de dar à luz mais uma filhinha, que sendo negra, como ela e o marido, deram-lhe o nome de Maria Clara, para espanto de muitos, que acharam, no mínimo, inusitado o fato de uma menina de pele escura, chamar-se Clara. Mais um feliz e corajoso ensinamento. Pois a claridade, a transparência, a clareza de uma pessoa, não está nem no nome nem na cor da pele, mas no brilho e na Luz que emana do coração desse ser humano. E, sendo essa Maria Clara, filha dessa amiga especial, que iluminou a minha vida tantas vezes, tem tudo pra se tornar também um ser humano iluminado e que ilumina! E que assim seja.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viver é bem do que existir!

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Ouvi esta frase de Oscar Wilde, dia desses, e anotei no meu bloco de idéias para usá-la num texto. Ontem à noite, encostado à beira da pia de minha cozinha, tirando a casca de uns ovos cozidos que acabara de preparar, lembrei-me de uma tia minha já falecida. Tia Mariazinha era, na verdade, a irmã caçula de minha avó. Em vésperas de dias de festa, sua missão era descascar ovos de codorna ou pincelar gema de ovo sobre as empadinhas. Fazia aquilo com tanta dedicação, que parecia fazer a coisa mais importante do mundo. Coisa mais rara era ouvirmos a sua voz. Nunca emitia opinião sobre nada. Apenas ouvia. Em dias de comemoração, sempre era aquela confusão lá na casa de minha avó. Coisas de família grande. Todo mundo falando, rindo, mexendo um com outro. Ela ficava lá sentadinha, quietinha. Às vezes ria meio tímida, quando alguém se lembrava de fazer-lhe uma graça. Na maioria das vezes, meu pai fazia isso. Lembro-me de que numa certa época, ela descia pontualmente às seis da tarde, sentava-se numa cadeira junto à mesa, na sala lá de minha casa, e acompanhava à novela. Não assistiu ao capítulo final, lembro-me. Estava internada numa clínica psiquiátrica. Fumava bastante. Talvez fosse esse seu único prazer na vida. Sentava na escadinha da área e tragava seu cigarrinho, com toda calma do mundo. Fico hoje imaginando o que se passava pela sua cabeça naqueles momentos. Morreu de enfisema pulmonar. Na última visita que fizemos no hospital, ela já muito fraca, meio inconsciente, chamava pelo meu pai. Talvez quisesse agradecê-lo pelos raros momentos de alegria. Pelos parcos sorrisos arrancados. Até hoje, é lembrada na família como exemplo do quanto fumar pode fazer mal a alguém. Como se esse tivesse sido o maior mal de sua existência. Lembro-me de uma cena, que me marcou profundamente. Quando minha outra tia-avó, chegando de Brasília, para o sepultamento da irmã, abraçou emocionada a minha avó, que lhe disse: “Dejanira, nossa irmãzinha morreu”. Ao que ela respondeu: “Morreu, Dalila? Essa pobre coitada não chegou nem a viver!”. Ouvi isso e nunca mais esqueci. Pelo menos, durante aqueles vinte e poucos anos de convivência, não me recordo de ver essa minha tia se emocionar com um bom livro, chorar com um bom filme ou dar boas gargalhadas na platéia de uma peça de teatro. Não viajou. Não sonhou com lugares fascinantes. Não recebeu cartas. Não jogou conversa fora com amigos. Não se apaixonou. Não sofreu por amor. Não cuidou de filho são ou doente. Não ‘estragou’ a boa educação dos netos. Não mergulhou em Noronha nem no Rio São Francisco. Não viu golfinhos. Não ouviu boa música. Não apreciou uma enorme lua cheia no céu. Não foi a um mesmo show de Bethânia onze vezes. Não viajou de carro pela Toscana. Não pegou chuva em Paris. Não esteve de frente ao Davi de Michelângelo. Nunca nem soube de sua existência. Não se alegrou com uma azaleia em flor. Não tirou fotos. Não aprendeu a nadar. Não escorregou na cachoeira da Maromba. Não cantou na Rádio Nacional. Não aprendeu novas receitas. Não fez a sobremesa preferida do seu amado. Não montou árvore de Natal. Não rezou. Não fez promessa. Não enfeitou a casa. Quase não chorou, quase não sorriu. Não fez escolhas. Enfim, passou pela vida, sempre à margem. Figurante na vida dos outros, não foi protagonista da própria história. Foi mera coadjuvante. Não teve direito ao papel principal da própria vida. Para mim, porém, sua missão foi além de descascar ovos ou pincelar empadinhas. Sua vida sem vida tem sido o ensinamento mais veemente que viver tem que ser realmente bem mais do que existir. Viver é bem mais do que estar respirando e ter o coração batendo. Viver é tomar para si as rédeas da sua existência. É dedicar-se a um ideal. É amar intensamente. É arriscar-se. “É desenhar sem borracha”, como diria Millôr Fernandes. Gosto de acreditar que ela está feliz lá no ‘tempo da delicadeza’. Deus há de tê-la recompensado. Porque aqui não lhe foi dada a chance de entregar-se à vida!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Coisas sobre a chuva...

As chuvas de verão sempre me inspiraram. Dias de céu azul me fascinam pela beleza das cores, mas dias de temporal me impressionam pela força da natureza e pela capacidade que ela tem de se refazer.

Sempre fiquei impressionado com a rapidez com que uma tempestade de verão pode se formar e depois ir embora. Eu adorava ficar na varandinha da casa de meus avós, observando esses dias de tempestades de verão. Às vezes, o céu estava lá naquele azul intenso, pouquíssimas nuvens. E, lá bem longe, a gente via o morro do Corcovado e o Cristo de braços abertos. De repente, o vento começava a soprar forte e as nuvens iam se acumulando, como se fosse um espetáculo de dança, cada uma correndo e se colocando em seu devido lugar. O céu fechava completamente, cheio daquelas nuvens cinzentas e carregadas. O Cristo parecia ter sumido. Era como se a noite tivesse perdido a hora e estivesse chegando afoita pra cumprir sua rotina. No meio das nuvens, de vez em quando, avistavam-se relâmpagos que pareciam rasgar o céu. E, logo depois, ouviam-se então os estridentes trovões. Daqueles de estremecer o coração da gente. E, lá de dentro da casa, ouvia-se minha avó a suplicar pela proteção de Santa Bárbara. Em questões de minutos, aquele dia de céu azul arrebatador se transformava numa noite cinza, nublada e tristonha. Por mais que eu já tivesse visto inúmeras vezes, eu sempre teimava em acreditar que era possível que aquilo se dissipasse. De repente, começavam a cair aqueles pingos grossos, que iam salpicando cada vez mais rapidamente a cerâmica avermelhada da varanda. Meu avô logo aparecia com rodo e panos pra conter a chuva que inundava a área da casa. A chuva caía e lavava tudo, levava tudo. Eu adorava vê-la passando. E eu ficava mesmo era impressionado com a rapidez com que aquela noite ia se desfazendo e as nuvens iam novamente se espalhando, saindo de cena. E novamente o céu azul ressurgia. Era como se as nuvens plúmbeas ou a noite precoce, num ar resignado e impotente, abrissem alas aos raios brilhantes do astro rei. Aqueles primeiros raios ainda encontravam a garoa fina e um arco-íris multicolorido cortava o céu de fora a fora. Era a vida ressurgindo como antes. A felicidade que se renovava. Tomei aquilo como ensinamento pra vida toda. Sou de ter esperança em dias melhores. Sou de acreditar que o tempo vai melhorar. Mas a vida às vezes nubla de tal maneira, que parece que a gente não vai suportar o tempo que leva para o sol reaparecer. Há dias que parecem noites intermináveis. Mas, fato é que o céu azul sempre reaparece e perdoa-nos a falta de esperança!



E na primeira mordida, lembre-se daquelas tardes chuvosas na casa da vovó, na casa da sua infância.

Lembre-se da mamãe pegando cada colherada, jogando na panela. Os bolinhos corando, caindo no açúcar, e a gente já passando pela cozinha pra pegar. A mamãe ralhando, pois só podíamos comer quando todos estivessem prontos.

Lembre-se daqueles dias em que estávamos todos juntos, amontoados embaixo do cobertor, rindo, implicando uns com os outros. Papai dormindo sentado no sofá. A TV ligada no futebol, e quando a gente ia trocar de canal, ele resmungava e dizia: “ei, to vendo”.

Só mesmo os domingos chuvosos, a saudade da infância, da família reunida, nos fazem capazes de transformar farinha de trigo, leite e açúcar em felicidade, em poesia.






sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Haverá quem diga que é história de menina...

“Certa vez, eu tive um sonho”, me revelou a menina...
 
E no sonho, um anjo me contou que lá no lugar onde nascem as almas, Deus dava à luz mais uma delas. E, como todas as vezes que fazia isso, Ele soprou sobre ela a Sua imagem e Sua semelhança, pra que a alminha, que Ele acabara de criar, ficasse bem parecida com Ele. Só que, algumas vezes, Deus soprara com muita força e a alminha se dividia em duas, três... Isso, na verdade, sempre acontecia, dizia-me o anjinho, pois sendo Deus, assim tão todo-poderoso, era difícil pra Ele controlar sua força. E toda vez que ele soprava sobre as almas criadas, ele as dividia, pelo menos, em duas. “Mas, então, como Deus resolvia este impasse?”, eu perguntei. Ao que o anjinho do meu sonho respondeu: “De uma forma muito simples, que é por sinal, a forma como Deus sempre age. Em vez de uma alma, nascem duas, três, quatro, almas ao mesmo tempo. Simples assim”. “Esta é a maneira ilógica de Deus ser perfeito”, continuou o anjinho, implorando pra que eu não interrompesse mais a sua história. As alminhas gêmeas então se juntavam às outras e ficavam esperando o momento certo de serem enviadas e encontrarem uma casa aqui na Terra. “Uma casa aqui na terra?”, tive vontade de perguntar. Mas, antes que eu começasse a falar, ele me olhou com ar de reprovação e danou a tagarelar. “Sim, uma casa”. Deus fica esperando o momento exato em que uma criança começa a se formar no ventre de sua mãe, faz um milagrezinho, e dá um jeito de enfiar a primeira alminha da fila dentro daquele novo ser que começa a crescer dentro da barriga da mãe. A casa das almas aqui na Terra, dizia-me então o anjo, é o corpo humano onde elas plantam aquele sopro que receberam de Deus, trazendo, assim, pra dentro de cada ser um pouco da mesma essência que Deus tem dentro de si. Antes que eu me atrevesse a perguntar, o anjinho impaciente tratou de me revelar que, no momento em que as almas entram em suas casas, o anjo da guarda coloca o indicador sobre a boquinha da criança, pedindo silêncio sobre essa história. Por isso, a gente esquece tudo e ainda fica com essa covinha bem entre o nariz e a boca. “Mas onde é que eu estava mesmo?”, me perguntou meu amigo celestial. E, sem dar tempo para resposta, continuou: “Ah, sim”. Aquelas tais alminhas, que Deus tinha acabado de criar, vieram parar aqui na Terra e, então, foram morar cada uma em sua casa. E, assim, caminharam por estradas muito diferentes e distantes. Cresceram. Seguiram seus destinos. Viviam na busca incessante da Felicidade, que é uma coisa que toda alma tem mania de fazer, até que, certo dia, elas se encontraram na mesma estrada. Entreolharam-se e reconheceram-se. Naquele momento, sentiram que existia algo de especial entre elas. Não repararam a cor de suas peles, o valor de suas riquezas, muito menos, as diferenças de credo ou sexo. Foram tomadas apenas por uma imensa alegria em seus corações. Sentiram uma paz inexplicável. Uma sensação de plenitude, de preenchimento total, de que nada mais lhes faltava. A partir desse dia, seguiram caminhando de mãos dadas. Cada uma delas, sem perceber, acabou por esquecer a mania de buscar a sua própria felicidade, e passou a se dedicar à promoção da felicidade da outra. Nos momentos difíceis, as almas se apoiavam, suportavam uma à outra. Compreendiam-se. Doavam-se. Amavam-se cada vez mais. E, como que num encanto, elas tornaram-se um único ser novamente. E seguiram o caminho que as fizeram reencontrar aquela Fonte Inesgotável que as criou gêmeas, cumprindo, finalmente, sua missão de almas criadas por Deus. O anjinho, com as duas mãos entrelaçadas, com aquela cabecinha meio de lado, e com os olhinhos revirados pra cima, suspirou e concluiu: “Encontraram enfim a tão esperada Felicidade”. Eu bati palmas, entusiasmada. Ele me olhou espantado e disse: “Se você ainda não encontrou a sua alma gêmea, trate de procurá-la. Não desista nunca! Ela pode habitar o coração de um amor, de um amigo ou de uma amiga, de alguém da sua família, de uma irmã ou de um irmão, de mesmo sangue ou não. Essas pessoas que tornam a caminhada aqui na Terra mais leve e suportável. Quando encontrá-la, dedique-se a fazê-la feliz e, quando menos esperar, perceberá que quem é mais feliz é você mesmo.” Eu fiquei pensativa, distante. Ele, com aquele seu jeitinho sutil, me deu uma sacudida, e eu acabei acordando. Mas não sem antes ouvir suas últimas palavras: “Os sonhos se fazem realidade à medida que acreditamos neles”.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sou desses que amam pra sempre

Havia ainda poucos dias desde a partida de minha avó. Eu chegava ao sobrado onde eu havia morado e convivido com ela e toda a família. Meu avô, sempre tão alegre, carinhoso, estava sentando numa cadeira à frente da casa, com um olhar perdido, pensativo. Pela primeira vez, nem percebeu que eu havia chegado. “Tá pensado em quê, vô?”. “Em quem poderia ser?”, apontou o indicador para o céu. Desde então essa era a forma como ele se referia a ela. Não tinha mais coragem de pronunciar seu nome. Olhando o horizonte, com a voz embargada, me disse: “agora, sou pássaro sem asa, meu neto! Eu tenho tentado, mas sem ela, eu não sei mais voar.” Ali, eu compreendi o que era um amor verdadeiro. Um amor pra sempre.

Lembrei-me imediatamente de certa vez, quando sentado à mesa, perguntei à minha avó, então com 81 anos: “vó, do que a senhora se lembra da época dos seus filhos pequenos, como era quando todos ainda estavam juntos?”. Ela me respondeu: “eu fui feliz. Seu avô sempre muito compreensivo. Às vezes, ele chegava, eu ainda tava na máquina. Eu costurava segunda, terça e quarta. Machado caseava, pregava botão (Clique para ouvir...)”. E, lembrando-se disso, ela se emocionou e chorou. “Não chora, meu amor. Você é o amor da minha vida, você sabe disso.”, vovô fez-lhe um afago. Vovó era completamente dedicada a ele. No entanto, não havia submissão. Havia entrega. Havia amor. Amor correspondido. Porque ela era também a sua alegria de viver.

Vovô e vovó viveram mais de 60 anos juntos. Foram milhares de dias de convivência, sim fiz as contas, mais de 20.000 (vinte mil) dias dormindo e acordando juntos, dividindo preocupações, alegrias, todos os sonhos, todos os projetos. Para ela, a felicidade era simplesmente a presença dele ao seu lado. O companheirismo. A compreensão. A vida de sacrifício à beira de uma máquina de costura tornava-se tão pequena diante da felicidade de tê-lo por perto. E, na alegria, na tristeza. Na saúde, na doença. Ele sempre estava. Era nítido o quanto ainda se amavam. Depois de tantos anos, os dois ainda nutriam o romance, a sensualidade sutil, perceptível na troca de olhares, na cumplicidade. No carinho. Aqueles olhos ainda tão apaixonados, ainda brilhavam, trocavam segredos, confissões. Depois de tantos anos, ainda se divertiam, ainda riam juntos. Ainda eram felizes. Havia o desejo, a vontade de estar junto.

Encontraram-se por acaso num fim de tarde, durante uma caminhada rotineira pelo passeio público da Rua Santa Luzia, no centro do Rio, nos idos de 1948. Amor à primeira vista? Talvez. Mas certamente não foi isso que fez aquela história durar tanto tempo. Houve muita renúncia, muito sacrifício, muita dedicação mútua. Muita paciência, parcimônia. Sabedoria. Muito amor, além da primeira troca de olhares. Uma história verdadeira. Muito distante das histórias de romantismo, de filmes e contos de fada. Uma história de amor, com todas as nuances e matizes que cabem à vida real.

Às vezes, parece que passamos a vida inteira na tentativa de esbarrar com um amor desses pela rua. Pois não há prêmio maior do que poder caminhar de mãos dadas em busca de sonhos em comum. Ter alguém ao teu lado que te faça sentir pleno, jovem, alegre. Livre. Alguém que torne teus dias, dias mais saborosos, mais leves. Alguém que respeite o teu silêncio. Alguém que tolere os teus defeitos. E que, algumas vezes, até veja certa graça neles. Alguém em quem você possa confiar sempre. Alguém que te conheça profundamente, e ainda assim te ame verdadeiramente. Alguém a quem você tenha vontade de contar todas as suas histórias. Alguém a quem sempre haverá algo a ser dito. Alguém com quem você consiga ficar em silêncio, sem que isso incomode, sem que isso seja constrangedor. Alguém que segure as pontas, quando você não tem forças para fazê-lo. Alguém que te faça rir, porque às vezes é o humor, a alegria, e não apenas o amor, o que sustenta uma relação duradoura. Alguém que deseje beber da mesma taça, de erguer contigo o mesmo cálice, brindar contigo a vida. Alguém com quem você possa viajar pra qualquer lugar do mundo, conhecer lugares juntos, novas culturas, novas histórias pra contar. Alguém com quem você queria ficar em casa, apenas vendo uma bobeira qualquer na televisão. Alguém que acorde no meio da noite e te faça um carinho. Alguém cuja presença, alivia teus medos, teus pesadelos. Alguém que seja a primeira pessoa a quem você queira comunicar suas realizações ou seus fracassos. Alguém que, numa festa, numa reunião qualquer você olha e se sinta a pessoa mais feliz do mundo por sabê-lo seu. Alguém que te olhe com desejo. Alguém que mesmo depois de anos, você ainda tenha vontade de beijar em pé. Que te faça segurar a porta para último beijo antes de ir embora. Alguém com quem você queira ficar enrolando na cama pela manhã, que te faça sorrir ao acordar. Que faça piada, que te irrite de vez em quando. Alguém que quando você passa por perto, num momento cotidiano qualquer, te faça ter vontade de volta para dar um beijo, um abraço, um amasso. Enfim, alguém que você queira que esteja ao teu lado caseando, pregando botões. Para sempre.

Excelente a sensação de estar apaixonado, de ter encontrado a pessoa certa. Porém, melhor ainda é ter a certeza que com o passar dos anos, o amor parece cada vez maior, mais intenso. Sorte daquele que consegue na vida esbarrar com sua alma gêmea. No entanto, a felicidade a dois não nasce do encontro. Ela se constrói a cada dia. Corre nas minhas veias o mesmo sangue dos meus avós, foi com eles que eu aprendi a ser desses que amam pra sempre!