sexta-feira, 18 de maio de 2012

Meus mais doces bárbaros


Lembro-me de que vivia uma vida feliz.
Uma vida bem tranquila, cheia de coisas que me satisfaziam.
Cheia de bons momentos. Parecia que nada me faltava.
Cria que não podia melhorar!
Agora, não consigo mais entender, o que seria viver sem eles por perto!

Meu tesouro maior, a minha felicidade plena.
A razão da minha alegria. A luz que ilumina meus dias.
Talvez eles sejam a brisa que torna a minha caminhada mais serena.
Hoje, eles acendem em mim essa chama revigorante, essa coragem de seguir em frente.
Enternecem as minhas horas, tornam leves os meus dias.
Uma sensação de plenitude, de leveza, sempre me invade quando os tenho por perto.
Seus sorrisos largos, o carinho, o abraço, a pela macia, o beijo suave são dádivas divinas.

Deus me presenteou e me fez perceber o que realmente vale a pena.
Um amor que me transborda a alma, que me faz rejuvenescer.
Diante da inocência, da alegria, dos gestos tão espontâneos, da pureza de alma.
Ah, como poderia viver sem isso ao alcance?

Minha vida agora tem mais sentindo.
Agora, meus dias são mais bem vividos.
Riqueza de minha alma é o brilho de seus olhos dóceis.
Imaculada Virgem, peço-vos sem cessar.
Amparai-os, neste teu dia, minha Mãe Querida.
Não permitais que lhes faltem a graça e a paz que vêm de Deus.
Agora e sempre, protegei estes que são o meu tesouro maior.

(Tio Deda)

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe, fonte de minha energia química!

       Neste dia dedicado àquela que há tanto nos transmite seu calor, seu carinho e amor, aproveito para agradecer à minha mãe querida, por ter sido o reator em que minhas primeiras reações químicas puderam ser realizadas. Sem você eu não seria possível. Obrigado por não permitir que, a princípio, meu equilíbrio fosse atingido. Por ter sido a fonte de tantos reagentes, sem os quais minhas reações não seriam deslocadas no sentido de gerar mais produtos. Quem diria, mãe, que você me faria experimentar tão cedo o Princípio de Le Chatelier? Logo eu, que crescendo dentro de você ia provocando uma confusão só, aumentando cada vez mais a sua entropia, consumindo sua energia livre, afim de que todas aquelas minhas reações não-espontâneas pudessem acontecer e meu organismo tão complexo pudesse se formar dentro de você. Obrigado por abrigar por tanto tempo a imensa quantidade de reações orgânicas, com todos aqueles mecanismos complicadíssimos, as inúmeras reações bioquímicas e suas rotas metabólicas dificílimas. Obrigado por ter sido a primeira vizinhança do meu sistema. Por ter fornecido calor para minhas reações endotérmicas e ter absorvido o calor liberado pelas minhas reações exotérmicas, com tanto carinho e disponibilidade. Por todo suor evaporado para manter nossa temperatura ideal. Obrigado por ter me fornecido toda aquela solução amniótica, de pH e pressão osmótica perfeitos para o meu desenvolvimento no seu ventre. E por ter carregado aquele volume todo de solução por tanto tempo. Desculpe-me por ter roubado tanto do seu Ca2+, mas era necessário para a formação da minha estrutura óssea. Valeu também pelas quantidades de íons ferro, foi essencial para a formação do meu sangue. Sei também que foram muitas moléculas de glicose sendo oxidadas a CO2(g) e muito O2(g) reduzido a H2O(l), muita transferência de elétrons, para gerar tanta energia durante aqueles tantos meses de gestação. Tantas enzimas para catalisar aquelas reações essenciais ao meu crescimento dentro de você. Obrigado por ter realizado toda aquela força para provocar o meu deslocamento para fora do seu corpo, valeu pelo trabalho muscular realizado! Obrigado também pelo seio que forneceu meu primeiro coloidezinho, cheio de nutrientes e proteção imunológica. E, mais tarde, pela paciência e dedicação ao seguir tantas vezes os procedimentos experimentais para preparar tão pacientemente minhas mamadeiras de amido de milho, meus chazinhos de erva-doce, minhas papinhas. Foram tantas misturas, diluições, agitações constantes, extrações, filtrações, fusões, evaporações, banhos-marias, banhos de gelo, aquecimentos, resfriamentos, tomadas de temperatura, enfim, tudo para que eu ficasse bem alimentado e satisfeito. Obrigado por toda atenção dedicada para me manter dentro das normas padrões de segurança e higiene. Obrigado pela fiscalização incansável e tão eficiente dos meus resíduos sólidos e líquidos. Sei que foram muitas noites mal dormidas, tentando manter minhas condições normais de temperatura e pressão.

Talvez essa mensagem nem faça tanto sentido pra você, talvez você nem leia, pois nem vai entender muito bem. Mas, o que importa mesmo, e o que eu queria que você soubesse, é que sem sua energia, sem suas reações químicas na minha vida, eu nada seria. Obrigado por cada átomo fornecido, por cada mol de reagentes, por cada caloria gasta, pela relação perfeita entre termodinâmica e cinética que você possibilitou. Obrigado por manter o equilíbrio, quando necessário. Enfim, obrigado, por ter me fornecido sua fronteira diatérmica para que eu sentisse minha primeira transferência de calor, quando você encostou pela primeira vez seu rosto no meu, me aqueceu, e me fez perceber o quanto seria importante para mim, manter relações físico-químicas com você por resto da vida. Mãe, obrigado por fazer minha vida tão espontânea!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma pitada de sal

             Feriado, essa chuvinha fina que não passa, lembra-me de uma época em que, num dia como esse, eu acordava sem ter muito que fazer, e depois de tomar café da manhã num cantinho de mesa, entre panelas secando depois de ariadas, roupas tiradas da corda, ainda amarrotadas, aquela voz do locutor de programa de rádio AM já invadindo a casa desde cedo, eu ia me esquivando daquela confusão toda e subia pra casa de minha avó. Lá eu ficava às vezes apenas sentado na escadinha da área de serviço, vendo a chuvinha cair, trocando algumas palavras com meu avô, um tanto alheio à passagem do tempo, guardando aquele meu silêncio habitual. Em uma dessas oportunidades, eu ainda muito menino, vi minha avó preparando um mingau e pedi que me ensinasse a fazê-lo. Ela, com sua paciência de sempre, foi me dando todas as dicas. Depois de ensinar-me a receita completa e explicar cada detalhe de como preparar o mingau, ela disse que falaria então o segredo mais importante: “não se esqueça de colocar, por fim, uma pitada de sal!”. Obviamente que eu não consegui entender porque seria necessário acrescentar a uma receita doce uma pitada de sal. E mais ainda porque isso era tão importante. Então eu indaguei: “vó, mas pra que isso?”. Ao que ela muita sabiamente respondeu: “A pitada de sal aguça o sabor doce, a presença do sal torna o doce mais saboroso”. Na época, apenas registrei a informação. No entanto, como em muitas outras vezes, esses momentos de convivência com minha avó voltam à roda, à mente, e a maturidade me faz recriar, reinventar e reler a beleza de suas palavras e ensinamentos.

Minha avó acabara de me ensinar sua filosofia do contraste. A presença do oposto, do antagônico é sempre necessária para valorizar e dar sentido àquilo que efetivamente é a razão de nosso interesse, o objeto principal de nossa atenção, de nossos anseios e desejos. Há pouco tempo, li um texto de Bacherlard que também dizia alguma coisa neste sentido, neste caso, algo sobre a relação essencial entre a sede e a água. A sede é o que dá sentido à água. Só o sedento sabe como ninguém valorizar a água. Ou como diz o dito popular, “o melhor tempero é a fome”. A fome aguça o sabor. A treva traz significado à luz. Dias de chuva tornam os posteriores dias de sol ainda mais belos. A ausência dá sentido à presença. Assim, por exemplo, a saudade se torna coisa boa de sentir quando traz pra dentro da gente o que não se tem mais por fora. É o mecanismo de trazer o longe pra perto. Tornar presente o ausente, concreto o abstrato. Parece que essa é a lógica da vida. A necessidade de contrastes.

No entanto, a gente vive tentando fugir dessa realidade de antagonismos, sempre presentes e tão importantes de serem vivenciados. Parece que não queremos aceitá-la nunca. Não educamos e nem somos educados para ela. Vivemos a ilusão de que a felicidade é apenas um destino a ser alcançado e não uma estrada a ser percorrida. Idealizamos a felicidade como um estado de alma, onde a dor, o sofrimento, a tristeza não são possíveis de serem admitidos. Quando na verdade, é sabido que momentos tristes também constroem uma vida feliz. Fico muito angustiado, por exemplo, quando vejo pais criando seus filhos na infrutífera tentativa de protegê-los das decepções, dos percalços, da dor, e até mesmo da experiência da morte. Como se isso fosse possível. A dor, o sofrimento, a tristeza, obviamente, não são fáceis de serem vivenciados. Mas fato é que eles existem. Não temos como fugir. Lá em casa, graças a Deus, nunca nos foi negado o direito de experimentar a dor. Aprendemos desde cedo que a tristeza, o sofrimento, e mesmo a morte, faziam parte da vida. Minha avó sempre passou por estes percalços de forma muito digna. É claro que sofria, chorava. Mas nunca lamentava. Apenas respeitava, dava o tempo e importância devidos àqueles momentos. Mesmo quando perdeu filhos, não se entregou a ponto de sepultar com eles a sua alegria de viver. Encarava a dor com elegância. Pois, sabia que não era ela a responsável pelo sabor real da vida. A vida é doce, mesmo com suas pitadas de sal, ela sabia.

Por isso, seja essa de fato a grande sabedoria da vida. Entender que ela é feita de contrastes. Os quais são necessários, essenciais. Reais. O que não quer dizer que são fáceis. Mas é preciso vivenciá-los para que a vida imprima seu verdadeiro sentido. Por isso, é importante respeitar a dor, é preciso ter paciência, resignação e saber esperar o tempo dela passar. Porque ela passa. Sempre passa. A gente tem é que aprender a ter a medida certa. Buscar o tão cobiçado equilíbrio. A pitada de sal não pode ser tal que elimine o sabor doce do mingau, ensinava-me minha avó. O sal deve estar na medida certa. Nem mais nem menos. É preciso experimentar o amargo, o acre, afim de que se possa entender e verdadeiramente saborear o doce da vida. Talvez quando me alertou para aquele tal detalhe, minha avó não tivesse a verdadeira dimensão do quanto seu ensinamento seria importante para minha vida. E nem eu mesmo poderia supor.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Saudade, dor pungente!

Sob a luz primeira da manhã, a bela índia, a cunhatã, de cabelos negros luzentes, distraída e serena, banhava sua pele morena, no riacho de águas correntes.

Um também belo rapaz, destemido e audaz, teimava em aproximar-se de seu amor mais recente, a cabocla de seios fartos e de nudez inocente.

Assim como um alvorecer, antes da manhã se romper, por entre as folhas orvalhadas, lá se ia o viandante, de olhos verdes brilhantes, espiar a sua amada.

Como Iara, a sereia, ela fingia-se alheia, mas também o ansiava.
E, por detrás da igaçaba, a virgem índia o encantava com seus negros olhos de jabuticaba.

Era um romance impossível, de futuro imprevisível, já supunha o estrangeiro. Era um amor proibido entre a cabocla e um banido. Era um amor por inteiro.

Numa noite, num rompante, a cabocla e seu amante sucumbiram à intemperança. E sob a luz dum luar de prata, que alumiava a densa mata, entregaram-se à aventurança.

E, por entre os arvoredos, embrenharam-se sem medo que os pudessem alcançar. No coração da floresta, com o peito ardente em festa, puseram-se a se beijar.

A virgem de tez macia, que ao corpo de seu amor se unia, o possuía com avidez. Eis que no abraço, distraídos, abstraíram o perigo. E o inesperado se fez.

Um guerreiro enciumado, de coração dilacerado, diante de cena contundente, por despeito ou por vingança, cravou no fidalgo uma lança, que o feriu mortalmente.

O índio, prometido à virgem, acometeu-se de vertigem, ao ver que sua flecha de morte também sangrou, no abraço forte, a índia que ele amou.

Num afã desesperado, o guerreiro inconformado, clamou aos céus por Tupã.Que olhasse para o seu pranto e, por milagre ou por encanto, lhe salvasse a cunhatã.

E Jaci, que do alto luzia, compadeceu-se da agonia e creu no arrependimento. E ao índio outrora aguerrido, que ali se via perdido, propôs um encantamento.

O casal alanceado, a Lua traria ao seu lado, feito estrelas brilhantes. Se aquele guerreiro Tupi aceitasse para si a mesma dor lancinante.

Conta-se hoje na aldeia, que em noites de lua cheia, vê-se a alma do guerreiro. Que de tristeza varado, segue ali, resignado, às margens do velho ribeiro.

Sua alma ainda sem paz, desde então sofre incapaz de um mal que não tem cura. Por ter amado intensamente, sente a mesma dor pungente, que lhe enche de amargura.

Com o olhar perdido e sombrio, ele fita à beira-rio as duas estrelas distantes. E sofre de tal maneira, como se a mesma seta certeira, em seu peito apaixonado, lhe cravassem a todo instante.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sobre crocodilos e outros animais selvagens

Há poucos dias, assisti a um vídeo na internet por indicação de uma amiga. Um gatinho invade o espaço de um crocodilo em um jardim zoológico. O crocodilo se encontrava à beira de um lago, alimentando-se, o gato se incomodou com o fato e partiu pra cima do crocodilo, dando inúmeras patadas na cara do imenso réptil, que recuava, voltava a comer, enquanto o gato insistia em bater nele, até que, em certo momento, o crocodilo se recolheu pra debaixo d’água, desistindo da comida. As pessoas acharam incrível a coragem do gatinho, que enfrentou sem medo o crocodilo, colocando-o pra correr. Assim que vi a cena, me perguntei: quem é o verdadeiro herói desta história? Pois, na minha visão, surpreendente foi a atitude do crocodilo. O gato não passou de um inconsequente, que deu sorte de ter encontrado um crocodilo diferente, porque se o crocodilo o tivesse abocanhado, seria perdoado por todos nós, afinal de contas essa era a atitude que qualquer um esperaria do réptil irracional. No entanto, para surpresa de todos, o animal parece ter vencido seu instinto selvagem e recolheu-se ao fundo do lago. Inicialmente, pensei em escrever algo sobre esta atitude surpreendente do crocodilo, do quanto às vezes escondemos também um lado animal, instintivo e selvagem dentro de nós, que diante de certas situações, quando somos tentados a agir de forma agressiva, optamos pela não violência, até porque, diferentemente do que se espera de um crocodilo, atitudes sensatas deveriam ser comuns aos seres humanos inteligentes. Porém, acabei sendo levado à outra reflexão, quando li no jornal a história ocorrida com o jovem, Vitor Suarez Cunha, de 21 anos, morador da Ilha do Governador, aqui no Rio de Janeiro. O Vitor, assim com eu e a grande maioria das pessoas, deve ter aprendido na escola a temer crocodilos, pois como todo animal selvagem, os crocodilos agem por instinto de proteção e atacam quando se sentem ameaçados. O Vitor certamente não seria inconsequente como aquele gatinho que invadiu a jaula do crocodilo e importunou um animal sabidamente violento, implacável, escravo de seu instinto selvagem. Dentre outras coisas, o Vitor deve ter aprendido também na escola que seres humanos são animais classificados como racionais, pois são dotados de inteligência, livre arbítrio, isto é, podem optar por controlar seus instintos animais, portanto não devem agir de forma impensada. Diferentemente de crocodilos, os seres humanos, em princípio, são seres capazes de discernir, elaborar pensamentos, tomar atitudes sensatas. E, além disso, o jovem Vitor, pelo que parece, deve ter sido educado por uma mãe zelosa e preocupada em formar um cidadão solidário, preocupado com o próximo, digno e consciente de seus deveres e direitos, capaz de se indignar com a injustiça e com a maldade gratuita. Por isso, a ele pareceu muito natural, ao ver cinco rapazes tão jovens quanto ele espancando um morador de rua, reagir e tentar intervir de forma a evitar que os tais jovens ferissem o mendigo. No entanto, talvez o que Vitor não soubesse é que, assim como os crocodilos, os seres humanos podem ter atitudes também surpreendentes, inesperadas a um animal que se diz racional, atitudes completamente distintas daquelas que ele, Vitor, aprendeu que todo ser humano deveria ter. Os tais rapazes se incomodaram com o fato dele estar se metendo naquela história, derrubaram o Vítor no chão e deram inúmeros chutes em seu rosto. E só pararam porque um amigo do Vitor se jogou por cima dele na tentativa de protegê-lo e evitar uma tragédia ainda maior. O rapaz espancado teve que passar por uma cirurgia de mais de quatro horas, fraturou vários ossos da face e ainda pode ficar com sequelas em uma das vistas. Dois dos rapazes foram presos, um terceiro é considerado foragido e os outros estão sendo investigados. Quando indagado do porquê daquela atitude violenta contra o tal mendigo, um deles respondeu: “meu pai vai caminhar na praia amanhã e não iria gostar de ser incomodado por isso.” Então, eu me pergunto: que mundo é esse em que crocodilos não engolem gatos que batem na sua cara e seres humanos espancam violentamente, com o intuito de matar, mendigos ou jovens que se indignam com este tipo de violência gratuita? Como uma sociedade pode produzir jovens capazes de cometer tamanha atrocidade? Jovens de classe média alta, a princípio, estudados, que tiveram ótimas oportunidades na vida e que decidem espancar mendigos, empregadas domésticas, prostitutas, homossexuais. Que tipo de educação tiveram essas criaturas? Por que se acham no direito de resolver as coisas dessa maneira? Por outro lado, é de se surpreender também como ainda é possível educar, nesta mesma sociedade, seres humanos como o jovem Vitor, capazes de se indignar, de se incomodar a ponto de arriscar-se para defender um desconhecido, um desvalido qualquer, um mendigo. Se ainda fosse para proteger um cachorrinho peludo, fofinho, vá lá! Eu até entenderia. Mas um mendigo, Vitor? Quantos teriam esta atitude? Quem de nós não usaria a desculpa de que hoje em dia a gente não pode se meter, porque acaba sobrando pra gente? Quem de nós não seria indiferente? Afinal, mendigos fazem parte da paisagem, como postes, bancos de praça, latas de lixo. A gente logo se acostuma. A verdade é que, assim como o Vitor, não podemos ficar inertes às mazelas do mundo, temos que nos indignar com a injustiça, reagir contra a maldade. Temos que clamar por justiça. Cobrar do governo a aplicação da Lei, para evitar que pessoas como o jovem Vitor, que deveriam ser a maioria em nossa sociedade, tenham que se expor a este tipo de crime, por reagirem com indignação à violência gratuita praticada contra qualquer ser humano. Parece óbvio que qualquer animal, seja ele biologicamente classificado como racional ou irracional, que não consiga controlar seus instintos assassinos, que ataque pessoas na rua etc, deve ser preso, enjaulado. Crocodilos que matam até podem ser perdoados. Seres humanos que espancam seres humanos, não. Nada justifica. Que sejam, portanto enjaulados, como qualquer animal selvagem que invade a cidade. Ou será que já estamos vivendo numa selva e nem nos demos conta?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Preconceito se aprende desde criança!

Sempre questionei o fato de sendo Iemanjá uma divindade da mitologia africana, um orixá no culto de religiões originárias da África, sua imagem no imaginário popular ser a de uma mulher branca, de cabelos longos e bem lisos, a sair do mar. Iemanjá não deveria ser negra? Alguns me dirão tratar-se de questão de sincretismo, e eu ousarei discordar, porque diferentemente de outros orixás, que tem nos altares sua imagem associada aos santos católicos, essa imagem da mulher branca saindo das águas não é comum de se ver em altares das igrejas católicas.
Associei este fato a uma pesquisa feita nos Estados Unidos com crianças negras, que diante de bonecos brancos e negros, eram questionadas a respeito de coisas como quem era a mais bonita, a mais boazinha, a feia, a má. “Por que você acha essa a mais bonita?”, questionou o entrevistador, ao que a criança negra respondeu: “Porque ela é branca e tem os olhos azuis!”. É no mínimo intrigante o resultado da pesquisa. Para mim, demonstra o quanto a sociedade incute padrões na cabeça do indivíduo desde muito cedo, e como a gente é permissivo com relação a isso. Lembro-me de, quando muito menino, ter uma vizinha negra e outra loira, adorava brincar com as duas. Meus tios viviam me enchendo a paciência com aquelas coisas, fulana é sua namorada, vai casar com ela, etc. Como é nítido pra mim hoje a diferença no tom da provocação em relação a minha amiguinha negra e a minha amiguinha loira. Adultos despertando nas crianças coisas que elas mesmas nunca levam em consideração, quando na verdade deveriam ensinar desde cedo o respeito à diversidade, às diferenças.
Há alguns anos, eu assisti a um espetáculo teatral chamado Avenida Q, que é um musical da Broadway, adaptado pelos diretores brasileiros Charles Möeller e Cláudio Botelho, que tem de diferente, inicialmente, o fato de ser um musical envolvendo bonecos. O espetáculo foi fabuloso. A interpretação dos atores, a simbiose entre estes e os bonecos, que são, verdadeiramente, os atores principais do espetáculo era mesmo de impressionar. Fico aqui agora tentando me recordar de alguns momentos da peça e o que me vem à cabeça é a imagem dos bonequinhos, como se eles tivessem ali sozinhos em alguns momentos, apesar da manipulação ter sido realizada completamente às claras. Simbiose mesmo, no sentido biológico real, “relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espécies diferentes”. Porque aqueles bonecos tinham vida! Arte pura! Com preciosismo, zelo, cuidado nos detalhes. Só vendo mesmo pra entender.
A peça tratava basicamente de relações humanas, da plurarilidade, da diversidade e, principalmente, da presença do preconceito nessas relações. E, de certa forma, da hipocrisia da sociedade que se finge de politicamente correta pra esconder as misérias humanas. A peça trata com humor extremamente sutil e inteligente a nossa capacidade de achar graça da desgraça alheia – e aqui cabe ressaltar o enorme talento dos artistas brasileiros em adaptar o estranhíssimo humor americano, ou inglês, da montagem original à nossa realidade brasileira, carioca.
É realmente uma coisa muito esquisita. Não sei se é típico do brasileiro, mas é, no mínimo, interessante essa nossa tendência a fazer piada da desgraça dos outros e até da nossa própria. É sempre muito bom, quando a gente está na merda, encontrar alguém que esteja numa merda pior ainda. Como se costuma dizer hoje em dia, ‘fulano tá todo cagado, mas continua rindo!’. Eu mesmo, quando quero acabar com a alegria dos meus alunos, que riem quando tiram notas baixas, os chamo de hienas: estão na merda, mas não param de rir. Já perceberam, por exemplo, quando morre alguém famoso, a quantidade de piadas de humor negro (uma expressão nada politicamente correta!) que surge. ‘O que é o que é? Todo enrugadinho, branquinho, de olhos azuis e mora no fundo do mar?!’ Quem é que nunca riu de piada de preto, de viado, de mongolóide, de retardado, de aleijado, de português, de loira, de gordo? Ou melhor, de afrodescendente, de homossexual, downiano, deficiente mental, deficiente fisico, pessoa de nacionalidade lusitana, mulher de cabelos tingidos, obeso, para ser politicamente correto. Que é o jeito que a sociedade, muita vezes hipócrita, acaba por utilizar, de forma a amenizar com palavras mais elegantes, o preconceito, a intolerância que, na essência, nas entrelinhas, continua presente, indepentemente de expressões linguísticas mais rebuscadas ou não.
Mas é realmente impressionante como o nosso preconceito é tão intrínseco, tão espontâneo, na maioria das vezes. Esta semana, por exemplo, vi  no youtube, um humorista negro, fazendo o povo rir com aquelas típicas piadas de negro, e uma senhora então, ele conta, no fim do espetáculo diz a ele: ‘achei muito legal essa sua capacidade de rir do próprio defeito’. Ou então aquelas frases típicas: ‘pretinho de alma branca’, ‘ele é viado, mas é legal, respeita, não fica dando em cima’, ‘é maconheiro, mas é gente boa!’, ‘fulano é negro, mas adora uma lorinha’, ‘ah, para com isso, isso é coisa de viado!’, ou ainda, ‘é preta, mas o cabelo é bom’. Ou então aquelas coisas do tipo: ‘mas ô neguinha (ou criola) abusada!’ Como se atitudes abusadas fossem mais absurdas quando feitas por negros do que por brancos.
Faz-me lembrar da história que uma colega professora me contou, dizendo que, certa vez, ela disse pra uma amiga, negra, que ela era a mulher mais bonita que ela conhecia, e a tal amiga ficou muito feliz, e surpresa ao mesmo tempo, pois na maioria das vezes, as pessoas dizem: ‘você é uma negra muito bonita’, quando na verdade, querem dizer: ‘você, apesar de ser negra, é muito bonita’. Já que ninguém diz: 'você é uma branca muito bonita'.
Bastante ilustrativo, também, naquela noite do teatro, foi quando estávamos caminhando para a sala de espetáculo, no shopping da Gávea, num hallzinho do shopping, dois rapazes sentados num sofá, um com o braço sobre o ombro do outro, com atitudes de carinho mútuo, chamavam a atenção dos passantes. Duas senhoras, distintíssimas, super bem vestidas, com cabelos super laqueados, olharam a cena, se entreolharam e disseram: ‘meu Deus, que absurdo, onde é que nós estamos!’. As distintas senhoras entraram no teatro. Fico imaginado o que elas acharam da peça, que começava justamente tratando do preconceito ao homossexual. E depois ao negro, ao estrangeiro, ao judeu, ao peludo, ao viciado em pornografia da internet, etc, etc. Talvez, quem sabe, fossem elas, as tais solteironas escrotas, pilares da sociedade, citadas na peça. Senhoras da Gávea, mas com mentalidade suburbana, como diriam os preconceituosos.
A montagem acabou por me levar a refletir quantos erros ainda cometemos quando nos prendemos a certos padrões impostos pela sociedade, muitas vezes hipócrita e ignorante, ou  pelos costumes, pela tradição, etc. Até mesmo por leis e regras rígidas e, a princípio, bastante coerentes, ditadas por pessoas inteligentes, sensatas, mas que se apegam a uma verdade – com v minúsculo – e deturpam, muitas vezes de forma brilhante e embasada, a Verdade maior e absoluta que é o Amor, que, independente, de credo religioso, cor da pele, orientação sexual etc, deveria ser a essência de cada ser humano.
O que realmente é importante numa relação humana? O que torna realmente essa relação mais duradoura? A cor da pele, a preferência sexual, a orientação religiosa ou a tolerância, a paciência, a capacidade de conviver com as diferenças ou idiossincrasias de cada um? O respeito ao próximo, talvez seja a receita. Cada um de nós é único e conviver é uma arte. Penso que o sucesso de uma relação não está vinculado com a maior ou menor quantidade de defeitos do outro, mas com o nosso talento em lidar com eles, ou seja, o exercício da compreensão. Cada vez mais, estou certo disso. O sucesso das minhas relações familiares, amorosas, de amizade etc, nunca esteve no fato de meus pares serem brancos ou pretos, gordos ou magros, heterossexuais ou homossexuais, católicos, protestantes ou espíritas, mas sim na nossa capacidade mútua de conviver com nossas manias, de compreender nossas idiossincrasias. Nunca me preocupo realmente com esses padrões. Não que eu não seja uma pessoa preconceituosa. Nós somos naturalmente assim. Mas tento não guardar esse preconceito comigo, mando pra bem longe, todos os dias, todos os momentos.
Sinceramente, penso, que ao invés de trazer informações sobre cor da pele, sexo, naturalidade, nacionalidade, etc, seria bem mais útil em nossa carteira de identidade informações do tipo: levanta a tampa do vaso pra urinar? Aperta o tubo de pasta de dentes no meio? Deixa a toalha de banho molhada em cima da cama? Come fazendo barulho? Cutuca quando fala? Ronca ao dormir? Gasta dinheiro à toa? É sovina? É preguiçoso? Irritado? É honesto? Leal? Confiável? Enfim, coisas realmente importantes na convivência humana. Porque defeitos e qualidades, integridade ou mau caratismo, dignidade ou falta de vergonha na cara, senso de justiça ou falta de escrúpulos, não são privéligio nem de pobre nem de rico, nem de preto nem de branco, de judeu ou árabe, católico ou protestante, de homem ou mulher, de bicha ou sapatão. Dependem, mais do que qualquer outra coisa, da orientação educacional, dos ensinamentos de pai e mãe, da criação familiar, do que da cor da pele ou da opção – ou, melhor, orientação – sexual de cada um. Não é o fato de termos olhos castanhos, verdes ou azuis, ou até mesmo o fato de termos a capacidade de enxergar, que nos faz ver o mundo de forma diferente, com maior ou menor clareza, mas sim os ensinamentos e experiências que acumulamos no decorrer da vida. É tão comum vermos pessoas cegas, apesar da plena capacidade física de enxergar.
O importante é a busca de um rumo na vida, como ressalta o texto da referida peça. Um ideal nobre de vida, que nos faça enxergar o que realmente importa nas pessoas. O espetáculo a que me refiro, deixou-me a imagem de que somos responsáveis uns pelos outros. E que o nosso sucesso depende do sucesso do outro, ou seja, da dedicação, do cuidado que prestamos àqueles que carregamos nos braços, nossos amigos, nossos semelhantes, nossos pares. Como o ator ou a atriz, que dão vida aos bonecos, e nos confudem a ponto de questionarmos quem conduz quem nessa empreitada. Literalmente, a arte de conviver.
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Escrevendo esse texto, na época, acabei por me lembrar de meus amigos todos, brancos, negros, morenos, mulatos, hetero, homossexuais, católicos, crentes, espíritas, ateus. Lembrei-me de uma amiga em especial, que em certa época da minha vida foi a razão da alegria de meus dias, a amiga de todas as horas, da alegria, da tristeza, da saúde, da doença. Crescemos juntos e nos tornamos seres humanos especiais juntos. Naqueles dias, ela havia acabado de dar à luz mais uma filhinha, que sendo negra, como ela e o marido, deram-lhe o nome de Maria Clara, para espanto de muitos, que acharam, no mínimo, inusitado o fato de uma menina de pele escura, chamar-se Clara. Mais um feliz e corajoso ensinamento. Pois a claridade, a transparência, a clareza de uma pessoa, não está nem no nome nem na cor da pele, mas no brilho e na Luz que emana do coração desse ser humano. E, sendo essa Maria Clara, filha dessa amiga especial, que iluminou a minha vida tantas vezes, tem tudo pra se tornar também um ser humano iluminado e que ilumina! E que assim seja.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viver é bem do que existir!

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Ouvi esta frase de Oscar Wilde, dia desses, e anotei no meu bloco de idéias para usá-la num texto. Ontem à noite, encostado à beira da pia de minha cozinha, tirando a casca de uns ovos cozidos que acabara de preparar, lembrei-me de uma tia minha já falecida. Tia Mariazinha era, na verdade, a irmã caçula de minha avó. Em vésperas de dias de festa, sua missão era descascar ovos de codorna ou pincelar gema de ovo sobre as empadinhas. Fazia aquilo com tanta dedicação, que parecia fazer a coisa mais importante do mundo. Coisa mais rara era ouvirmos a sua voz. Nunca emitia opinião sobre nada. Apenas ouvia. Em dias de comemoração, sempre era aquela confusão lá na casa de minha avó. Coisas de família grande. Todo mundo falando, rindo, mexendo um com outro. Ela ficava lá sentadinha, quietinha. Às vezes ria meio tímida, quando alguém se lembrava de fazer-lhe uma graça. Na maioria das vezes, meu pai fazia isso. Lembro-me de que numa certa época, ela descia pontualmente às seis da tarde, sentava-se numa cadeira junto à mesa, na sala lá de minha casa, e acompanhava à novela. Não assistiu ao capítulo final, lembro-me. Estava internada numa clínica psiquiátrica. Fumava bastante. Talvez fosse esse seu único prazer na vida. Sentava na escadinha da área e tragava seu cigarrinho, com toda calma do mundo. Fico hoje imaginando o que se passava pela sua cabeça naqueles momentos. Morreu de enfisema pulmonar. Na última visita que fizemos no hospital, ela já muito fraca, meio inconsciente, chamava pelo meu pai. Talvez quisesse agradecê-lo pelos raros momentos de alegria. Pelos parcos sorrisos arrancados. Até hoje, é lembrada na família como exemplo do quanto fumar pode fazer mal a alguém. Como se esse tivesse sido o maior mal de sua existência. Lembro-me de uma cena, que me marcou profundamente. Quando minha outra tia-avó, chegando de Brasília, para o sepultamento da irmã, abraçou emocionada a minha avó, que lhe disse: “Dejanira, nossa irmãzinha morreu”. Ao que ela respondeu: “Morreu, Dalila? Essa pobre coitada não chegou nem a viver!”. Ouvi isso e nunca mais esqueci. Pelo menos, durante aqueles vinte e poucos anos de convivência, não me recordo de ver essa minha tia se emocionar com um bom livro, chorar com um bom filme ou dar boas gargalhadas na platéia de uma peça de teatro. Não viajou. Não sonhou com lugares fascinantes. Não recebeu cartas. Não jogou conversa fora com amigos. Não se apaixonou. Não sofreu por amor. Não cuidou de filho são ou doente. Não ‘estragou’ a boa educação dos netos. Não mergulhou em Noronha nem no Rio São Francisco. Não viu golfinhos. Não ouviu boa música. Não apreciou uma enorme lua cheia no céu. Não foi a um mesmo show de Bethânia onze vezes. Não viajou de carro pela Toscana. Não pegou chuva em Paris. Não esteve de frente ao Davi de Michelângelo. Nunca nem soube de sua existência. Não se alegrou com uma azaleia em flor. Não tirou fotos. Não aprendeu a nadar. Não escorregou na cachoeira da Maromba. Não cantou na Rádio Nacional. Não aprendeu novas receitas. Não fez a sobremesa preferida do seu amado. Não montou árvore de Natal. Não rezou. Não fez promessa. Não enfeitou a casa. Quase não chorou, quase não sorriu. Não fez escolhas. Enfim, passou pela vida, sempre à margem. Figurante na vida dos outros, não foi protagonista da própria história. Foi mera coadjuvante. Não teve direito ao papel principal da própria vida. Para mim, porém, sua missão foi além de descascar ovos ou pincelar empadinhas. Sua vida sem vida tem sido o ensinamento mais veemente que viver tem que ser realmente bem mais do que existir. Viver é bem mais do que estar respirando e ter o coração batendo. Viver é tomar para si as rédeas da sua existência. É dedicar-se a um ideal. É amar intensamente. É arriscar-se. “É desenhar sem borracha”, como diria Millôr Fernandes. Gosto de acreditar que ela está feliz lá no ‘tempo da delicadeza’. Deus há de tê-la recompensado. Porque aqui não lhe foi dada a chance de entregar-se à vida!